21 de abril de 2018

Tornar-se e Ser - Osho


"A fonte original de toda tensão é o tornar-se. O indivíduo está sempre tentando se algo; ninguém está tranquilo consigo mesmo tal qual é. O ser não é aceito, o ser é negado e algo mais é tomado como um ideal no qual se transformar. Assim, a tensão básica é sempre um ideal no qual se transformar. Assim, a tensão básica é sempre entre aquilo que você é e aquilo que você ambiciona vir a ser.

Você deseja tornar-se algo. A tensão significa que você não está satisfeito com o que você é e você ambiciona ser o que não é. A tensão é criada entre estes dois. O que você deseja se tornar é irrelevante. Se quiser se tornar rico, famoso, poderoso ou mesmo se quiser ser livre, liberado, ser divino, imortal, mesmo se você ambicionar a salvação, moksha, também a tensão estará ali.

Qualquer coisa que seja desejada com algo a ser satisfeito no futuro, contra você como você é, cria tensão. Quanto mais impossível o ideal é, maior a tensão tende a ser. Por conseguinte, a pessoa que é materialista, normalmente não é tão tensa como a que é religiosa. porque a pessoa religiosa está ambicionando o impossível, o distante. A distância é tão grande que somente uma grande tensão pode preencher o vazio.

Tensão significa uma lacuna entre o que você é e o que quer ser. Se a lacuna for grande, a tensão será grande. Se a lacuna for pequena, a tensão será pequena. E se não há lacuna de forma alguma, significa que você está satisfeito com o que você é. Em outras palavras, você não ambiciona ser uma outra coisa que você não é. Então, sua mente existe no momento. Não há nada com o que estar tensa; você está satisfeito consigo mesmo. Você está no Tao. Para mim, se não há lacuna você é religioso. você está em dhrama.

A lacuna pode ter muitas camadas. Se a ambição for física, a tensão será física. Quando você busca um corpo em particular, uma forma particular - se você ambiciona algo diferente do que você é no nível físico - então há tensão no seu corpo físico. Alguém quer ser mais bonito. Agora o corpo torna-se tenso. Esta tensão começa no primeiro corpo, o fisiológico, mas se é insistente, constante, pode se aprofundar e se espalhar para outras camadas do seu ser.

Se você está ambicionando poderes psíquicos, então a tensão começa no nível psíquico e se espalha. O espalhar-se é exatamente como se você jogasse uma pedra no lago. A pedra cai num ponto particular, mas as vibrações criadas por ela continuarão a se espalhar até o infinito. Assim, a tensão pode se iniciar em qualquer um dos sete corpos, mas a fonte original é sempre a mesma; a lacuna entre um estado que é e um estado que é almejado.

Se você tem a mente de um tipo particular e quer trocá-la, transformá-la - se você deseja ser mais talentoso, mais inteligente - então a tensão é criada. Só se aceitamos a nós mesmos totalmente, não há tensão. Esta aceitação total é o milagre, o único milagre. Encontrar uma pessoa que tenha aceito a si mesma totalmente é a única coisa surpreendente.

A existência em si não é tensa. A tensão é sempre por causa das possibilidades hipotéticas, não existenciais. Não há tensão no presente; a tensão é sempre voltada ao futuro. Ela procede da imaginação. Você pode imaginar-se como algo diferente do que é. Este potencial imaginado criará tensão. Quanto mais imaginativa a pessoa é, pois, mais a possibilidade de tensão. Então a imaginação torna-se destrutiva.

A imaginação pode também tornar-se construtiva, criativa. Se toda sua capacidade de imaginar está focalizada no presente, no momento e não no futuro, então você pode começar a ver sua existência como poesia. Sua imaginação não está criando um ambição; está sendo usada na vivência. Está vivência no presente está além da tensão.
Os animais não são tensos, as árvores não são tensas, porque eles não têm a capacidade de imaginar. Eles estão abaixo da tensão, não além dela. A tensão deles é apenas uma potencialidade; não se tornou atual. Eles estão evoluindo. Surgirá um momento em que a tensão explodirá em seus seres e eles começarão a ambicionar o futuro. É propenso a acontecer. A imaginação torna-se ativa.

A primeira coisa a respeito da qual a imaginação torna-se ativa é o futuro. Você cria imagens e porque não há realidade correspondente, continua a criar mais e mais imagens. Mas no que diz respeito ao presente, você não concebe a imaginação relacionada a ele. Como você pode ser imaginativo no presente? Parece não haver necessidade. Este ponto deve ser entendido.
Se puder estar conscientemente presente no presente, você não estará vivendo na imaginação. Então, a imaginação estará livre para criar dentro do presente em si. Só é necessário o focar correto. Se a imaginação é focalizada no real, ela começa a criar. A criação pode tomar qualquer forma. Se você é poeta, ela se converte numa explosão de poesia. A poesia não será uma ambição do futuro, mas será uma expressão do presente. Ou se você é pintor, a explosão será de pintura. A pintura não será algo como você imaginou, mas como o conheceu e o vivenciou.
Quando você não está vivendo na imaginação, o momento presente lhe é dado. Você pode expressá-lo ou cair no silencio. Mas o silencio agora não é um silencio morto, é também uma expressão do momento presente. Este silencio é um florescer positivo. Algo floresceu dentro de você, a flor do silencio e através deste silencio, tudo o que você está vivendo é expressado."
Osho em Psicologia do Esotérico.

14 de abril de 2018

Osho fala sobre o batismo de Jesus


"Uma vez pediram a um rabino que resumisse toda a mensagem da Bíblia. Ele respondeu que toda a mensagem é muito simples e curta. É Deus gritando para o homem: "Entronize-me!"
Foi isso que aconteceu naquele dia no rio Jordão. Jesus desapareceu, Deus foi entronizado. Jesus esvaziou a casa, Deus entrou. Ou você existe ou Deus existe - os dois não podem coexistir. Se você insiste em existir, então abandone a busca de Deus; ela não se realizará. Dessa forma a busca é impossível, absolutamente impossível. Se você estiver presente, então, Deus não pode estar; a sua própria existência, a sua presença é a barreira. Você desaparece... e Deus está. Ele sempre esteve.

O homem vive como uma parte, separado do todo. Ao redor de si, ele cria ideias, sonhos, o ego, a personalidade, e pensa em si como uma ilha, desconectado do todo, sem relação com o todo. Você já conseguiu ver algum relacionamento entre você e as árvores? Já conseguiu ver algum relacionamento entre você e o mar? Se não conseguiu, então jamais chegará a ver o que é Deus. Deus, a divindade, não é nada mais que o todo, a totalidade, a unidade. Se você existe como uma parte separada, desnecessariamente existe como um mendigo. Você poderia ser o todo, a totalidade, a unidade. E mesmo quando pensa que é separado, você não é - isso é apenas um pensamento na mente. O pensamento não está enganando Deus, está enganando somente você. O pensamento é simplesmente uma barreira para seus olhos se abrirem.

Naquela manhã no rio Jordão, quando João Batista iniciou Jesus, ele matou Jesus completamente. Jesus desapareceu. E naquele momento de vazio - aquilo que Buda chama de shunyata, vacuidade - os céus se abriram e o espírito de Deus, como uma pomba, desceu sobre Jesus, iluminando-o. Isso é apenas simbólico; Jesus morreu, Deus foi entronizado. Isto é o que no zen se chama de transmissão especial, fora das escrituras. Nenhum conhecimento foi transmitido por João Batista a Jesus, nenhuma escritura foi transmitida - nem mesmo uma única palavra foi pronunciada. Nenhuma dependência de palavras ou letras, apenas um apontar direto para a alma do homem, uma penetração na natureza do homem - a obtenção do estado búdico.(...)

Jesus tornou-se uno com Deus, mas imediatamente foi banido por sua própria tradição. Ele tentou de mil e uma maneiras permanecer parte da comunidade, mas foi impossível. Ele não podia fazer parte das escrituras, não podia fazer parte da tradição. Algo do além entrara nele e, quando Deus entra, todas as escrituras se tornam inúteis. Quando você mesmo vem a conhecer, todos os conhecimentos se tornam lixo.

Essa foi a luta entre Jesus e os rabinos. Eles tinham conhecimento, Jesus tinha o saber - e estes nunca se encontram. O homem do saber é rebelde, o homem do saber tem seus próprios olhos; ele diz o que quer que veja. O homem do conhecimento é cego; ele carrega a escritura e nunca olha ao redor; segue apenas repetindo as escrituras. O homem do conhecimento é mecânico, não tem nenhum contato pessoal com a realidade."
Osho em Palavras de Fogo, reflexões sobre Jesus de Nazaré.


7 de abril de 2018

Centramento através do corpo - Osho


"Lembre de confiar em seu próprio organismo. Quando você sente que o corpo está dizendo para não comer, pare imediatamente. Quando o corpo disser para comer, então não se importe se as escrituras dizem para jejuar ou não. 

Se seu corpo diz para comer três vezes ao dia, está perfeitamente bem. 
Se ele diz para comer uma vez ao dia, está perfeitamente bem.

Comece a aprender como escutar seu corpo, porque ele é o seu corpo.

Você está dentro dele; você precisa respeitá-lo, você precisa confiar nele.
É o seu templo; é sacrilégio impor coisas ao seu corpo. 
Por nenhum motivo nada deve ser imposto! 

E isso não somente lhe ensinará a confiar em seu corpo, isso lhe ensinará, pouco a pouco, a confiar na existência. Assim sua confiança crescerá e você irá confiar nas árvores, nas estrelas, na lua, no sol e nos oceanos: você confiará nas pessoas.

Mas o começo da confiança tem que ser confiar em seu organismo.
Confie em seu coração.
Um sannyasin é aquele que confia em seu próprio organismo e essa confiança o ajuda a relaxar em seu ser e o ajuda a relaxar na totalidade da existência. 
Isso traz uma aceitação geral de si mesmo e dos outros.

Confiança dá um tipo de enraizamento, de centramento. 

Então há uma grande força e poder, porque você está centrado em seu próprio corpo, em seu próprio ser."
Osho em O Sutra do Coração #10

31 de março de 2018

Sobre a solidão - Pëma Chödrön


"Normalmente vemos a solidão como um inimigo. A melancolia não é algo que escolhemos convidar. Ela é inquieta, fértil e ardente pelo desejo de escapar e encontrar alguma coisa ou alguém que nos faça companhia. Quando conseguimos repousar no caminho do meio, começamos a ter um relacionamento não ameaçador com a solidão, uma solidão relaxante e refrescante que transforma radicalmente nossos amedrontados padrões habituais.

Não há ponto de referência no caminho do meio. A mente, sem ponto de referência, não se define, não se fixa, não se agarra. Como é possível não ter um ponto de referência? Isso seria mudar uma resposta arraigada e habitual diante do mundo: querer que as coisas funcionem bem, de um jeito ou de outro. Se não podemos virar nem para esquerda nem para a direita, achamos que vamos morrer! Quando não escolhemos uma direção, temos a sensação de estar em uma clínica de desintoxicação. Sentimos a angústia da abstinência, com toda a irritação que temos tentado evitar por meio de nosso padrão habitual. Esse sentimento pode ser bastante penoso.

No entanto, anos e anos de virar para um lado ou para o outro, de escolher sim ou não, de dizer certo ou errado nunca mudaram, de fato, coisa alguma. Lutar por segurança nunca trouxe nada além de alegria momentânea. Assemelha-se a mudar de posição das pernas durante a meditação. Nossas pernas cruzadas começam a doer e nós as movemos. Então, pensamos: “Puxa! Que alívio!”. Ficamos girando, procurando prazer, procurando conforto, e a satisfação que conseguimos tem vida curta.

Ouvimos muito falar sobre a dor do samsara e também sobre libertação. Mas não se fala muito sobre quanto é doloroso sair do aprisionamento para a liberdade. Esse processo exige enorme coragem, já que, basicamente, estamos mudando totalmente nossa percepção da realidade – algo como mudar nosso DNA. Estamos desfazendo um padrão que não é apenas nosso, mas de toda a humanidade: projetamos sobre o mundo um trilhão de possibilidades para alcançar a solução. Queremos ter dentes mais brancos, um gramado sem ervas daninhas, uma vida sem antagonismo, um mundo sem confusão. Queremos viver felizes para sempre. Esse padrão nos mantém insatisfeitos e nos causa muito sofrimento.

Nosso direito inato: O Caminho do Meio

Como seres humanos, não apenas buscamos uma solução – achamos que a merecemos. Entretanto, não apenas não merecemos uma solução – sofremos por causa dela. Na verdade, temos direito a algo melhor, àquilo que é nosso direito inato, ao caminho do meio – um estado mental aberto onde é possível relaxar no paradoxo e na ambiguidade. Na medida em que estamos evitando a incerteza vamos, naturalmente, sentir os sintomas da privação – de deixar de pensar que existe um problema e alguém, em algum lugar, precisa resolvê-lo.

O caminho do meio é muito aberto, mas não é fácil caminhar por ele, pois vai contra a textura de um antigo padrão neurótico que todos nós compartilhamos. Quando nos sentimos sozinhos, quando estamos desesperados, sentimos necessidade de virar para a esquerda ou para a direita. Não desejamos sentar e experimentar o que estamos sentindo. Não queremos passar pela desintoxicação. Mas é exatamente isso que o caminho do meio nos encoraja a fazer. Ele nos estimula a despertar a coragem que existe em cada um de nós, sem exceção, o que existe em mim e em você.

A meditação nos fornece um método para treinarmos no caminho do meio – para estarmos exatamente ali, naquele lugar. Na verdade, somos encorajados a nem mesmo agarrar qualquer coisa que surja em nossa mente. Reconhecemos simplesmente como “pensando” aquilo que chamamos de bem ou mal, sem todo o drama habitual que acompanha o certo e o errado. Somos instruídos a permitir que os pensamentos venham e se dissolvam, como se estivéssemos tocando em uma bolha com uma pena. Essa disciplina direta nos leva a parar de lutar e a descobrir uma disposição nova e imparcial.

Quando experimentamos determinados sentimentos podemos perceber como eles são especialmente férteis e cheios de expectativa de solução: solidão, tédio, ansiedade. Não é fácil permanecer no caminho do meio quando os estamos sentindo e isso só será possível se pudermos relaxar nesses sentimentos. Queremos vitória ou derrota, elogios ou culpa. Quando alguém nos abandona, por exemplo, não queremos permanecer com esse penoso mal-estar. Em vez disso, evocamos mentalmente nossa bem conhecida identidade de vítima infeliz. Talvez tentemos evitar a rudeza da situação dissimulando e, cheios de razão, dizendo a essa pessoa o quanto ela é confusa. Automaticamente, desejamos encobrir a dor, de uma forma ou de outra, por meio da identificação com o vitorioso ou com a vítima.

Normalmente vemos a solidão como um inimigo. A melancolia não é algo que escolhemos convidar. Ela é inquieta, fértil e ardente pelo desejo de escapar e encontrar alguma coisa ou alguém que nos faça companhia. Quando conseguimos repousar no caminho do meio, começamos a ter um relacionamento não ameaçador com a solidão, uma solidão refrescante que transforma radicalmente nossos amedrontados padrões habituais.

Existem seis atitudes para descrever esse tipo de solidão refrescante: desejar menos, contentar-se, evitar a atividade desnecessária, ter total disciplina, não vagar pelo mundo do desejo e não buscar segurança no mundo dos pensamentos discursivos.

Desejar menos

Desejar menos é a disposição para estar solitário sem buscar uma solução, quando tudo em nós anseia por algo que nos anime e mude nosso estado de espírito. Praticar esse tipo de solidão é uma forma de espalhar sementes para que a inquietação fundamental diminua. Na meditação, por exemplo, cada vez que rotulamos “pensando”, em vez de ficar interminavelmente às voltas como nossos próprios pensamentos, estamos apenas treinando estar exatamente ali, sem dissociação. Não conseguimos fazer isso agora, na medida em que estávamos dispostos a fazê-lo ontem, anteontem, na semana passada ou no ano passado. Mas, após praticarmos o desejar menos com perspicácia e coerência, alguma coisa muda. Temos menos desejo, no sentido de sermos menos solidamente seduzidos por nossa História Importantíssima. Assim, o caminho do guerreiro consiste em, diante da intensa solidão, conseguir sentar com essa inquietação durante 1,6 segundo, enquanto que, no dia anterior, era impossível estar com ela durante um único segundo. Esse é o caminho da coragem. Quanto menos nos dispersamos e enlouquecemos, mais saboreamos a satisfação da solidão refrescante. Como dizia frequentemente Katagiri Roshi, mestre Zen: “É possível ser solitário e não se sentir devastado por isso”.

Contentamento

Contentar-se é o segundo tipo de solidão. Quando não temos nada, não temos nada a perder. Nada temos a perder, a não ser nosso forte condicionamento para achar que temos muito a perder. Essa sensação tem suas raízes no medo – medo da solidão, da mudança, de tudo que não pode ser solucionado, da não existência. A esperança de evitar esses sentimentos e o medo de não consegui-lo tornam-se nossos pontos de referência.

Se desenharmos uma linha vertical no centro de uma página, saberemos quem somos se estivermos do lado direito ou do lado esquerdo. Mas ficamos sem saber quem somos quando não nos posicionamos em nenhum dos lados. Então, simplesmente não sabemos o que fazer. Simplesmente não sabemos. Não temos um ponto de referência, uma mão para segurar. Nesse momento, podemos nos apavorar ou nos aquietar. Contentamento é sinônimo de solidão, de solidão tranquila, de acomodar-se na solidão refrescante. Desistir de acreditar que somos capazes de fugir de nossa solidão. E que isso não vai nos trazer algum tipo de felicidade, alegria, bem estar, coragem ou força duradouras. Normalmente, precisamos desistir dessa crença um bilhão de vezes, mais uma vez fazendo amizade com nossos sobressaltos e medos, repetindo a mesma coisa milhões de vezes, conscientemente. Então, sem que saibamos como, alguma coisa começa a mudar. Podemos ser simplesmente solitários, sem alternativas, satisfeitos por estarmos exatamente ali, na qualidade e textura do que está acontecendo.

Evitar atividades desnecessárias

Evitar a atividade desnecessária é o terceiro tipo de solidão. Quando estamos solitários de um modo “intenso”, procuramos algo que nos salve, procuramos uma saída. Temos esse desagradável sentimento que chamamos de solidão e nossa mente simplesmente se descontrola, tentando encontrar alguma companhia que nos livre do desespero. Essa é a chamada atividade desnecessária – uma maneira de nos mantermos ocupados para não termos de sentir nenhuma dor. Esse processo pode assumir a forma de fantasiar obsessivamente o amor verdadeiro, de espalhar uma ótima fofoca aos quatro ventos, ou ainda de fugir sozinho para o deserto. A questão é que, com todas essas atividades, estamos buscando companhia de nosso modo costumeiro e habitual, usando as mesmas velhas e repetitivas fórmulas para afastar o demônio da solidão. Não poderíamos apenas nos aquietar e mostrar algum respeito e compaixão diante de nós mesmos? Que tal praticar deixar de sobressaltar-se e agarrar-se a algo no momento em que começamos a entrar em pânico? Relaxar na solidão é uma atividade que vale a pena. Como diz o poeta japonês Ryokan: “Se quiser encontrar o sentido, pare de correr atrás de tantas coisas”.

Completa disciplina

Outro componente da solidão refrescante é a disciplina total, que se relaciona com estarmos dispostos a voltar a cada momento, a simplesmente voltar com suavidade para o momento presente. Essa é a solidão como disciplina total. Estamos dispostos a sentar quietos, apenas estando ali, sozinhos. Não precisamos cultivar especificamente esse tipo de solidão; podemos apenas sentar quietos o bastante para perceber como as coisas realmente são. Somos fundamentalmente sós, e não há nada, em lugar algum, em que possamos nos agarrar. Além do mais, isso não é um problema. Na verdade, isso nos permite finalmente descobrir uma maneira de ser totalmente desconstruída. Nossas premissas habituais – todos os nossos conceitos sobre como as coisas são – impedem-nos de ter uma visão nova e aberta. Dizemos: “Sim, eu sei”. Mas não sabemos. Em última análise, não sabemos nada. Não existe certeza sobre coisa alguma. Essa verdade fundamental causa dor e queremos fugir dela. Entretanto voltar para algo tão familiar quanto a solidão e relaxar nela representa um bom exercício para perceber a profundidade das situações mal resolvidas de nossa vida. Estamos nos enganando quando fugimos da ambiguidade da solidão.

Não vagar pelo mundo do desejo

Não vagar pelo mundo do desejo é outra maneira de descrever a solidão refrescante. Vagar pelo mundo do desejo envolve procurar alternativas, buscar algo que nos conforte – comida, bebidas, pessoas. A palavra desejo inclui aquela qualidade de vício que já mencionamos, nossa tendência a nos apegarmos a algo porque queremos encontrar uma maneira de deixar tudo bem. Isso decorre de nunca termos crescido. Ainda queremos ir pra casa, abrir a geladeira e encontrá-la cheia de nossas guloseimas favoritas. Quando a situação fica difícil, queremos gritar: “Mamãe!”. À medida que continuamos no caminho, porém, deixamos nossa casa e nos tornamos desabrigados. Não vagar pelo mundo do desejo tem a ver com relacionar-se diretamente com as situações, do modo como são. A solidão não é um problema. Não é algo que precisa ser resolvido, e o mesmo é verdadeiro para qualquer outra experiência que possamos ter.

Não buscar segurança nos pensamentos discursivos

Não buscar segurança nos pensamentos discursivos é outro aspecto da solidão refrescante. Puxaram nosso tapete, a festa acabou, desta vez não temos saída! Não buscamos nem mesmo a companhia de nossa constante conversa interior sobre como as coisas são ou não são, sobre se são ou não são, sobre como deveriam ou não deveriam ser, como poderiam ou não poderiam ser. Na solidão refrescante, não esperamos que nossa tagarelice interior nos traga segurança. Essa é a razão pela qual somos instruídos a rotulá-la “pensando”. Ela não possui realidade objetiva. Somos encorajados a apenas tocar essa tagarelice e a permitir que se vá, sem fazer muito barulho por nada.

A solidão refrescante nos permite olhar honestamente e sem agressão para nossa própria mente. Gradualmente, podemos deixar de lado nossos ideais sobre quem achamos que deveríamos ser, quem achamos que queríamos ser, ou o que achamos que os outros acham que seríamos ou deveríamos ser. Desistimos e apenas olhamos diretamente, com humor e compaixão, para aquilo que somos. Então, a solidão não representa mais ameaça e a melancolia deixa de ser punição.

A solidão refrescante não nos fornece soluções e não nos dá um apoio. Ela nos desafia a entrar em um mundo onde não existe ponto de referência, sem polarizá-lo e sem cristalizá-lo. Esse processo é chamado caminho do meio ou a trilha sagrada do guerreiro.

Você saberia aproveitar essa oportunidade de ouro, quando acordar pela manhã e, de repente, começar o sofrimento da alienação e solidão? Em vez de se atormentar ou sentir que algo terrivelmente errado está acontecendo, exatamente ali, no momento da tristeza e da saudade, poderia relaxar e tocar o espaço ilimitado do coração humano? Experimente da próxima vez em que tiver essa oportunidade."

Pëma Chödrön em “Quando tudo se desfaz” 

24 de março de 2018

A prática da Gratidão - Monja Isshin


"Talvez o exercício mais profundo no Budismo seja a prática de Gratidão. Imagine passar um dia inteiro agradecendo cada pessoa que encontra e cada acontecimento! Obrigada, obrigada, obrigada. Saio da cama e vejo que está chovendo lá fora – obrigada. Encontro o meu marido, sonolento, com a barba por fazer – obrigada. Preparo o café da manhã – obrigada. Como o pão de cada dia – obrigada. Entro no carro e dou partida no motor – obrigada. Um motorista apressado me fecha no trânsito – obrigada.

O quê? Vou agradecer o cara que me fecha no trânsito, quase causando um acidente???

Sim! Vou agradecer! Talvez na hora nem consiga imaginar um motivo para ter gratidão – simplesmente vou fazer a minha prática de agradecer todas as pessoas e todos os acontecimentos.

Lembro me de quando iniciei a prática de Aikidô. No final das aulas, havia um exercício chamado “jiu-waza”, onde, um por um, os alunos tentam atacar o mestre e recebem as técnicas de defesa. O nosso professor honrava até os mais novos principiantes com a oportunidade de passar por este treinamento. No meu primeiro dia de aula, confesso que fiquei paralizada. Faltou coragem e não fui. No segundo dia, jurei para mim mesma que iria, custasse o que custasse – e fui. No final do exercício, tinha que fazer uma reverência e agradecer – em japonês – “arigatô gozaimashita”. Gente, que prática maravilhosa!

Entortava a língua com aquelas palavras estranhas que mal conseguia lembrar. E, de tanto medo que tive – medo de me entregar, de aceitar que alguém me jogasse ao chão, que me aremessasse para longe – gente, alguém vai achar que, no início, eu encontrava qualquer espírito de gratidão? É claro que não! Mas, o exercício era justamente isto – fazer uma reverência e agradecer. Dentes cerrados, entortava a língua e forçava aquelas palavras a saírem da minha boca. E aí que começou a operar-se um milagre!

Mesmo forçando o agradecimento, o simples ato de agradecer abria o meu coração, pouco-a-pouco. Até o meu subconsciente começou a ficar curioso para entender o que havia lá para agradecer, pois, inicialmente, só percebia o medo de ser machucado. Esta curiosidade me ajudou a observar melhor os outros colegas, quando iam para o “jiu-waza” – e perceber o prazer deles. Aos poucos, agradecendo cada exercício, comecei a perceber que o agradecimento vinha menos forçado. Começou a sair com facilidade. O “jiu-waza” em si começou a se tornar divertido! Aos poucos, o agradecimento começou a ser a partir do coração. Tinha descoberto o que havia ali para agradecer – e agradecia mesmo, do fundo do coração! Até hoje, sinto uma profunda gratidão por tudo que aprendi do meu mestre de Aikidô, tudo que aprendi com a prática de Aikidô.

Então, se, inicialmente, alguns de nossos agradecimentos possam sair forçados, a contra-gosto, mesmo assim, a Prática de Gratidão vai operar os seus milagres. Agradecendo, começamos a perceber mais e mais coisas a agradecer. Agradecendo, o coração se abre. Agradecendo, começamos a perceber o quanto temos para agradecer. Começamos a descobrir que até as situações difíceis têm um lado positivo a ser agradecido.

O motorista que me dá uma fechada no trânsito me dá uma oportunidade de treinar os meus reflexos e habilidade como motorista, também me dá uma oportunidade de treinar a minha compaixão com o exercício de me identificar com ele e com a pressa que o levou a me fechar. Oferece uma oportunidade de agradecer o Universo, o Sagrado, por ter me protegido, pelo fato de que houve um canto para eu encostar para escapar da fechada. Uma oportunidade de agradecer pelo fato que não aconteceu nada grave, de agradecer pela vida que tenho. De agradecer que tudo correu de tal forma que eu pudesse praticar a Generosidade e dar espaço para uma pessoa que, por algum motivo, estava com muito mais pressa do que eu.

A Prática de Gratidão faz parte da abertura do Coração de Compaixão. Mas, não é por isso que vamos nos fazer de capacho e deixar um agressor impune. É uma diferença de atitude, de postura interna que estamos desenvolvendo, mesmo que, às vezes, ações firmes se tornem necessárias. Mas podemos ter gratidão e compaixão até por um agressor – mesmo mandando ele preso, por exemplo – pois temos a oportunidade de nos fortalecer, enfrentando dificuldades. Lembro dos relatos dos monges tibetanos, exercitando o seu poder de compaixão enquanto passavam por torturas nas mãos dos chineses.

Não temos como negar que as pessoas que cultivam o Coração de Compaixão e a Gratidão são as pessoas mais felizes no mundo. Essa sabedoria milenar finalmente vem sendo provada cientificamente.

Como diz a Dhammapada: “Ódios nunca cessam pelo ódio nesse mundo; através somente do não-ódio eles cessam. Essa é uma lei eterna.”

Não é pela raiva que cessa a raiva – é somente pela não-raiva que a raiva cessa. E a Gratidão é um grande remédio para a “raiva” e “ódio” – uma grande parte da prática da “não-raiva”, do “não-ódio”.

Imagine passar não somente um dia inteiro agradecendo todas as pessoas e acontecimentos – imagine passar uma vida inteira agradecendo – banhando-se constantemente da energia da Gratidão e da Alegria de Viver! Um dia atrás de outro. Convido você a experimentar isto!

Que os méritos de nossa prática se estendam a todos os seres e que possamos todos nos tornar o caminho iluminado."
Gassho

Monja Isshin Havens - Missionária Soto Zen Japão

17 de março de 2018

Vê a Si mesmo - Sidharamerwar Maharaj


"Após muitos dias descobri o meu Ser. 
Eu não sou limitado com qualidades, estou além das qualidades. Depois de muitos dias esse encontro de mim comigo mesmo aconteceu. Até então ele achava que ele era apenas um Jiva e estava feliz naquela ignorância, mas agora ele reconheceu a Si mesmo.

Da mesma maneira que o oleiro estava obcecado com a ideia de que ele era um asno, esse Jiva estava entregando-se a uma ilusão parecida. As pessoas dão tudo ao corpo apenas, mas dizem que ‘eu comi’, ‘eu fiz isso’. De certa forma o Jiva estava invejando e desejando algo que era de outra pessoa.

Esse é um tipo de libertinagem, favorecer-se excessivamente daquilo que não é seu. Dizer que o dinheiro de outra pessoa é o nosso dinheiro, que a religião de outra pessoa é a nossa religião e agir de acordo com isso é uma libertinagem. Aquele que diz que as coisas do outro são suas é um pecador. Aquele que estava agindo dessa maneira e assumindo os deveres de outra pessoa, encontrou a Si mesmo depois de muitos e muitos dias. Aquele que até então estava dizendo ‘eu’, provou que isso era uma afirmação falsa.

Quando a Verdadeira Natureza do Ser é reconhecida, experimentamos que toda a felicidade do mundo é a nossa felicidade. Assim que o véu da dualidade é removido todos os pronomes da gramática, tal como: eu, você, eles, ela, etc. acabam. A dualidade que cria essas diferenças acaba completamente, então tudo se torna aquela Vastidão. 
O ‘Grande Reservatório do Conhecimento’ foi aberto. Aquele que é o servo aos pés do Sadguru descobre que esse mundo todo está preenchido com seu próprio Ser, ou Soham, ‘eu sou Ele’. Enquanto que para o homem que não é devoto do Guru este mundo aparece como ‘quem sou eu?’

Foi perguntado para um homem: ‘como é esta cidade?’ Ele disse: ‘esta cidade é como a sua língua’. Qual é o verdadeiro sabor da própria língua? Para aquele que é Brahman, o mundo todo é apenas Brahman. Se você é bom, este mundo é bom. Em outras palavras, o mundo aparece de acordo com o seu próprio ponto de vista, seu conceito. Apenas aquele que vê que este mundo é Brahman é ele mesmo Brahman.

E homem de conhecimento, o Jnani, que vê a Si mesmo como Ele realmente é. Este mundo revela sua ‘Realidade’ apenas para o Jnani. Enquanto que ele mostra todas as suas várias formas para o ignorante. Este mundo parece ser cheio de variedade para aqueles que não são devotos. E ele é um, para o devoto do Sadguru. De fato, a pessoa que é ignorante tem dois olhos. de forma que eles mostram a dualidade. 
Este mundo é chamado de dunya, que significa dois. Aquele que é ignorante verá apenas dualidade. A ignorância é nascida do dois.

Ao filho do Guru foi dado um olho e ambos os olhos antigos, os olhos que viam a dualidade, foram removidos. Isso porque o que eles mostram é falso. Assim como os olhos duais são falsos, o mundo que é visto por eles também é falso. Ao discípulo do Sadguru foi dado um olho e sendo ele apenas um, ele vê apenas um sem um segundo. O véu da dualidade foi removido. O véu da ilusão foi rasgado, o sentido de unidade surgiu e toda divisão foi embora.

Anteriormente você estava iludido, agora que o desengano se foi junto com esse sentido de se estar separado, a unidade foi provada. Os cinco elementos se foram, os planetas se foram e os pregadores da ilusão foram arrancados de seu palanque.

Uma única combinação planetária (a unidade com o conhecimento) está no destino de todos. Aquela constelação não muda e o seu proprietário não muda. Todos os planetas, juntamente com suas influências agora terminaram e as três qualidades (raja, tamas e satva) se foram junto com os seis inimigos (a raiva, a luxúria, a ganância, o desejo, o anseio e o orgulho). 

Os deuses Vishnu, Brahma e Shiva todos foram para seus respectivos lugares e apenas Paramatman permanece. Acabou a obsessão com os cinco elementos. O trânsito de Saturno e a fase dos sete anos e meio de infortúnio que estava associada com ele também terminou. 

O Jiva que era perturbado pelos cinco fantasmas dos elementos dissolveu-se. Apenas o Deus eterno, que jamais muda, permanece. Originalmente, Ele era puro e imaculado e através da discriminação Ele reconquistou sua Pureza. Ao existir entre os homens Deus pensou ser ele mesmo um ser humano e na ilusão ele estava chamando a Si mesmo de ‘eu’.

Hanuman pensava que era um macaco antes de se encontrar com Rama. Quando ele encontrou Sadguru, Rama, ele se tornou um com Rama tanto dentro quanto fora. Ele quebrou a guirlanda de joias para ver se Rama estava dentro dela. Depois ele rasgou seu peito para provar para Sita que Rama morava dentro dele. 
Naquele momento Rama disse: 'meu querido, porque você rasgou o seu peito? e não são essas joias também um com Rama?'

O que que existe que não contém Rama? Quando os dois olhos são oferecidos ao Sadguru, o qual é Rama, a pessoa obtém o 'olho uno', esse é o 'olho do conhecimento'. Rama, que está permeando todas as coisas, é visível apenas para esse terceiro olho. Aquele que estava sentindo 'do que era seu', ganhou isso de volta.

Somos os Reis e somos os servos, somos o Deus e os adoradores, somos a terra os rios. Ele tornou-se tudo Ele mesmo, e então obtém o que é seu Seu. 

O nascimento e a morte foram dissolvidos. Rama falou para Hanuman: 'você é eterno'.
Agora o Sadguru, que a Rama, diz: 'todos vocês macacos, vocês são Hanuman. Portanto, sejam Hanuman.’ Isso significa que vocês deveriam assassinar o ego. A palavra 'Hana' significa assassinar ou sacrificar, a palavra ‘maan’ significa orgulho ou o ego. 
Apenas quando o ego é sacrificado o homem se torna Hanuman. Estou falando para todos vocês serem Brahman. 
Acabado está o nascimento e a morte para aquele que vê a Si mesmo."
- Sidharamerwar Maharaj

10 de março de 2018

O "eu" e "aquilo" - Osho


"O eu supremo é formado pela palavra "aquilo", 
que tem maya, ilusão por disfarce; que é a fonte do mundo, investida de onisciência, 
onipresença e todo o resto; que se mistura com o indireto e é, em si, realidade.
Aquilo que faz as vezes de abrigo para a experiência do eu e da palavra "eu", 
e cujo conhecimento de seu próprio ser interior é falso, chama-se "tu" - tvan.
O supremo tem maya, ou ilusão, por disfarce; 
e o eu tem, por disfarce, a ignorância.
Quando nos livramos delas, só o eu supremo permanece, indivisível: 
sat chit anand, existência, consciência e bem-aventurança."
~Adhyatma Upanishad~

Os Upanishads não acreditam num Deus pessoal. Nem em relações pessoais com o divino; Acham que a relação pessoal é impossível, inconcebível. Por quê? Porque a própria personalidade é ilusória.
procure entender bem isso.
Sou uma pessoa. Isso quer dizer que estou separado da existência; personalidade significa separação. Não posso ser uma pessoa se não for definido, não posso ser uma pessoa se não for diferente, não posso ser uma pessoa se não estiver separado. A personalidade existe como uma ilha; definida, demarcada, diferente, separada. Os Upanishads sustentam que as personalidades são falsas: apenas parecemos ser pessoas, mas não somos.

O ser interior é impessoal; não tem limites, não tem fronteiras. Começa em lugar nenhum e acaba em nenhum lugar. Estende-se ao infinito: é infinito e eterno. Tanto no tempo quanto no espaço, é indefinido, indiferenciado. Não é separado como uma ilha.

A palavra personalidade é muito bonita; não temos equivalentes tão bonitos para ela em sânscrito ou hindi. Ela vem do termo latino, persona, que significa "máscara". Persona é simplesmente máscara. Os atores a usavam para representar ou simular um rosto numa peça teatral. O termo na origem, significa máscara, rosto artificial. Assim, se numa peça você estiver fazendo o papel de Rama, usará um rosto falso para dar a impressão de que é mesmo Rama. Mas por dentro, você não é Rama, só a máscara é de Rama, A palavra personalidade vem de persona.

Todos temos personalidades, que não passa de uma máscara. Dentro, não há nenhuma pessoa, apenas energia eterna, infinita. Por fora, temos um rosto. Esse rosto não somos nós, esse rosto se parece com qualquer máscara de um drama qualquer. O mundo é um grande drama e você tem de representar inúmeros papéis - por isso, um rosto só não basta. O drama é muito longo, muito amplo, multidimensional; por isso, todos possuímos vários rostos. Você não é uma pessoa, você são várias pessoas juntas.
Quando você conversa com um amigo, tem um rosto diferente; não é a mesma pessoa. Quando você se depara com um inimigo, tem outro rosto; esse rosto não é o mesmo; Está com a criatura amada? Mais um rosto. (...) Você conversa com seu funcionário, repare em seu rosto no espelho. Você conversa com seu patrão, outro rosto. O homem tem muitos rostos e precisa ter, pois a cada momento precisa de um diferente. Quanto mais civilizado for, mais rostos terá; quanto mais civilizado e culto for, com mais facilidade trocará de rosto rapidamente. Na verdade, você nem percebe que troca de rosto; o processo se tornou automático.

Portanto, personalidade não é o correto, mas sim personalidades. Cada pessoa são muitas pessoas - uma multidão interior e vários rostos que mudam de momento a momento. Mas somos nossos rostos?
No Japão, sempre que um interessado procura um mestre zen, este lhe diz: "Medite. Este é o objeto que lhe dou para meditar: descubra o seu rosto original. Descubra como era antes de nascer ou como será depois de morrer. Encontre seu rosto original - o seu, não o que existe para os outros."
Todos os nossos rostos são para os outros. Você tem um só eu? Não pode ter, pois rostos existem basicamente para os outros. Você não precisa deles para si, não há essa necessidade. Você não tem rosto. De fato, o rosto original não tem rosto. Você não tem um rosto interior  - todos os rostos são exteriores, existem para os outros, são feitos para os outros.

Os Upanishads dizem que, por dentro somos impessoais - somos vida, não pessoas; somos energia, não pessoas; somos vitalidade, não pessoas; somos existência, não pessoas. Então, como estabelecer uma relação com o divino? Como criar um vínculo com a fonte original de vida? Se não temos rosto, como poderia tê-lo o divino?  O divino não tem rosto. Não tem e não precisa ter. Ele é existência pura, sem corpo e sem rosto. Portanto, não podemos nos relacionar com ele pessoalmente.

As religiões falam em termos de relação pessoal. Algumas chama Deus de pai, mãe, filho, irmão ou seja lá o que for; isto é, pensam em termos de relação, de entidades, relacionadas. Adoram atitudes antropocêntricas. O pai é uma relação humana; irmão e irmã, são relações humanas. Quando pensamos em termos de relação com o divino, erramos o alvo, porque o divino não é uma pessoa e o relacionamento pessoal não é possível. Por isso, os Upanishads nunca chamam Deus de pai, nunca chamam Deus de mãe, nem de amante, nem de amado. Chamam-no simplesmente de "aquilo" - tat
O termo tat é fundamental no ensino e na filosofia upanishádica. Quando dizemos "aquilo" não pressupomos nenhum sentido de personalidade. Quando chamamos a existência de "aquilo" não levamos em conta a possibilidade de nos relacionarmos com ela - essa possibilidade não existe. Como poderíamos nos relacionar com "aquilo"? Ninguém pode se relacionar com "aquilo".
O que significa isso? Que, em última instância, não podemos nos relacionar com o divino? Não, mas mostra que nossa relação com o divino tem de ser muito diferente - uma relação não humana e, mesmo, o contrário de uma relação humana.
Numa relação de alguém com um marido, esposa, irmão, irmã, pai ou filho, duas pessoas são necessárias. Uma relação só pode existir entre dois pontos, entre dois objetos relacionados. É assim que uma relação humana existe: entre duas pessoas. Ela é um fluxo, uma ponte entre ambas. A relação humana é dual; dois pontos são necessários para que ela se estabeleça.
Entretanto, com "aquilo" - existência pura, o divino ou Deus - não podemos nos relacionar de maneira dual. Essa relação só é possível quando nos tornamos um. Você só pode se relacionar depois de deixar de existir. Enquanto continuar existindo, não haverá relação. Se você existe, está relacionado; mas então a própria palavra se torna absurda porque uma relação sempre pressupõe duas coisas. Como conceber uma relação em que só uma coisa existe?

Isso é o contrário de uma relação. Chamar o divino de "aquilo" acarreta várias consequências, várias implicações. Para começar não podemos nos relacionar com o divino no sentido comum de relação. Quando nos tornamos um, relacionamo-nos num sentido extraordinário, absurdo. Em segundo lugar, não podemos cultuar o "aquilo", é impossível.

Os Upanishads não preceituam cultos nem preces. Não. Aqui, convém entender bem a diferença entre prece e meditação. Os Upanishads ensinam meditação, não prece. A prece é sempre pessoal, um diálogo entre a pessoa e o divino. Mas como dialogar com o "aquilo"? Impossível - a pessoa precisa estar presente, do contrário não pode haver diálogo.

Um dos maiores filósofos judeus contemporâneos, Martin Buber, escreveu um livro chamado I and Thou. O pensamento judaico é dualista, ao contrário do upanishádico. Buber diz: " Eu e Tu - eis o relacionamento básico entre o homem e o homem, mas também entre o homem e o divino. De fato, esta é a única relação possível, a relação entre o Eu e o Tu".

Se você se postar diante de Deus como "eu", Deus se torna "tu" e a relação é estabelecida. Segundo Buber, quando Deus se torna "tu" ambos se apaixonam. Os Upanishads não concordariam com isso. Para eles, se Deus é "tu" então você está presente para chamá-lo assim. O "eu" continua existindo e o "eu" é uma barreira: se o ego existe, não pode se relacionar. Portanto, se você pensa que o ego está relacionado com o divino, esse pensamento é falso, ilusório. Você está imaginando coisas. Se Deus se torna "tu" isso é pura imaginação. Os Upanishads usam "aquilo". Mas podemos dizer "eu e tu" e não "eu e aquilo" pois não existe relação alguma entre "eu" e "aquilo". O "eu" tem de desaparecer para que "aquilo" surja e se expanda. Com o desaparecimento do "eu", o "aquilo" nasce. O "aquilo" existe, mas o "eu" é uma barreira. Quando a barreira cai, pela primeira vez sentimos a existência tal qual é - aquilo que existe.
Por isso, os Upanishads chamam a verdade absoluta de "aquilo" - tat.

O segundo conceito que se deve extrair desse sutra é que a natureza do "aquilo" consiste em sat-chit-ananda ( ou satchitananda). Sat significa existência; chit significa consciência; ananda significa bênção ou bem-aventurança. Sua verdadeira natureza é bem-aventurança.

Se você conseguir captar esses três atributos, entenderá o "aquilo". Você existe, não tem nenhuma dúvida disso. Todos dizem: "Eu existo." Você era criança e dizia: "Eu existo." Mas onde está essa existência agora? Você tornou-se jovem e repete: "Eu existo". Vai se tornar velho e dirá: "Eu existo". E a criança já se foi, o jovem já se foi e o velho logo morrerá, desaparecerá. Quem diz "Eu existo"? Quem continua a existir? A infância se transforma em mocidade, a mocidade em velhice; e a vida , em morte. Quem diz: "Eu existo"? Você o conhece?

Quando diz "Eu existo", você sempre identifica seu "eu" com a condição em que se encontra. Se é criança, afirma: " Eu, a criança, existo". Se é velho, afirma: "Eu, o velho, existo".  Se diz "eu" e é um homem, quer dizer que um homem existe; se é mulher, quer dizer: "Eu existo, uma mulher existe". Sempre a condição é identificada com o "eu" - e as condições vão mudando. Portanto, na verdade, você não conhece o que existe; conhece apenas o que muda sem parar.

Segundo os Upanishads, o que muda não tem existência, é um ilusão. Só tem existência o que é eterno. Por isso, procure dentro de si mesmo o ponto central, que possa dizer: "Eu existo, imutável, eterno, absolutamente eterno." Se alcançar esse centro da existência, alcançará duas coisas automaticamente, imediatamente: a consciência absoluta e a plenitude da bem-aventurança. Mas poderá também tentar outros caminhos. Há três atributos, portanto deve haver três caminhos básicos. Atinja a existência - pois os outros dois se seguirão - ou atinja qualquer dos dois e os dois restantes se seguirão.

Atinja a consciência, torne-se plenamente consciente - que você ainda não é. Você está adormecido. inconsciente, vagando como um sonâmbulo. Faz as coisas como um autômato. "

Osho em Upanishads, a essência de seus ensinamentos. 

27 de fevereiro de 2018

Sobre os papéis sociais - Eckhart Tolle



"Fazer o que é exigido de nós em qualquer situação sem que isso se torne um papel com o qual nos identificamos é uma lição essencial na arte de viver que todos nós estamos aqui para aprender. Somos mais eficazes no que quer que façamos quando executamos a ação em benefício dela mesma, e não como um meio de proteger e acentuar a identidade do nosso papel. Todo papel é uma percepção fictícia do eu e, por meio dele, tudo se torna personalizado e assim corrompido e distorcido pelo "pequeno eu" criado pela mente, seja qual for a função que este esteja desempenhando. Quase todas as pessoas em posições de poder, como políticos, celebridades e líderes empresariais e religiosos, se encontram inteiramente identificadas com seu papel, com poucas exceções notáveis.

Esses indivíduos podem ser considerados VIPs, mas não são mais do que participantes inconscientes do jogo egóico, que, apesar de parecer muito importante, não apresenta, em última análise, um propósito verdadeiro. Ele é, nas palavras de Shakespeare, "uma história contada por um idiota, repleta de som e de fúria, sem nenhum significado". E Shakespeare chegou a essa conclusão sem nem sequer ter visto televisão. Se o conflito egóico tem de fato um propósito, este é indireto: ele cria cada vez mais sofrimento neste mundo, e o sofrimento, embora produzido em sua maior parte pelo ego, no fim também o destrói. Ele é o fogo no qual o ego se consome.

Neste mundo de personalidades que interpretam papéis, as poucas pessoas que não projetam uma imagem criada pela mente e que agem com o âmago do seu Ser, aquelas que não tentam parecer mais do que são, destacam-se como admiráveis e são as únicas que fazem verdadeiramente a diferença - e existem algumas assim até mesmo na mídia em geral e no universo dos negócios. Elas são os mensageiros da nova consciência. Qualquer coisa que façam se torna importante porque está alinhada com o propósito do todo. Contudo, sua influência vai muito além do que realizam, da sua atividade. Sua mera presença - simples, natural, despretensiosa - tem um efeito transformador sobre qualquer um que tenha contato com elas.

Quando não interpretamos papéis, é porque que não há eu (ego) no que estamos fazendo. Não existem intenções ocultas: a proteção ou o fortalecimento do eu. Por esse motivo, nossas ações têm uma força muito maior. Ficamos totalmente concentrados na situação, nos tornamos um só com ela. Não procuramos ser alguém diferente. Passamos a ser mais capazes, mais eficazes, quando somos nós mesmos. Todavia, não devemos tentar ser nós mesmos, pois esse é outro papel. Estou falando do chamado "eu natural, espontâneo". Assim que buscamos ser isso ou aquilo, interpretamos um papel. "Apenas seja você mesmo" é um bom conselho, no entanto também pode ser enganador. Primeiro, a mente dirá: "Vejamos. Como posso ser eu mesmo?" Depois, desenvolverá uma estratégia do tipo "Como ser eu mesmo". Outro papel. Assim, "Como posso ser eu mesmo?" é, na verdade, a pergunta errada. Ela pressupõe que temos que fazer algo para sermos nós mesmos. Porém, "como" não se aplica a esse caso porque já somos nós mesmos. Precisamos apenas parar de acrescentar elementos desnecessários a quem já somos. "Mas eu não sei quem sou. Ignoro o que significa ser eu mesmo." Quando conseguimos nos sentir à vontade em não saber quem somos, então o que sobra é quem somos - o Ser por trás do humano, um campo de pura potencialidade em vez de alguma coisa que já está definida.

Portanto, desista de se definir - para si mesmo e para os outros. Você não morrerá. Você nascerá. E não se preocupe com a definição que os outros lhe dão. Quando uma pessoa o define, ela está se limitando, então o problema é dela. Sempre que estiver interagindo com alguém, não se porte como se você fosse basicamente uma função ou um papel, mas um campo de presença consciente.

Por que o ego interpreta papéis? Por causa de um pressuposto não questionado, um erro fundamental, um pensamento inconsciente, que é: "Não sou o bastante." E a esse pensamento se seguem outros, como "Tenho que interpretar um papel para conseguir o que é necessário para me completar", "Preciso obter mais para ser mais". No entanto, não podemos ser mais do que somos porque, por baixo da superfície da nossa forma física e psicológica, somos um só com a Vida em si mesma, com o Ser. Na forma, somos e seremos sempre inferiores a algumas pessoas e superiores a outras. Na essência, não somos inferiores nem superiores a ninguém. A verdadeira autoestima e a autêntica humildade surgem dessa compreensão. Aos olhos do ego, a auto-estima e a humildade são contraditórias. Na verdade, elas são uma só coisa e a mesma."

Eckhart Tolle em Praticando O Poder do Agora

24 de fevereiro de 2018

Pássaros inesperados - Jeff Foster


"Ás vezes você está caminhando por um caminho conhecido em uma manhã de primavera, e há tantas perguntas e dilemas mentais, tantas questões que parecem exigir respostas imediatas... 
O que fazer com esse presente precioso da vida? 
Onde ir? O que dizer a seguir? 
Qual a escolha para fazer ou não fazer? 
Qual voz ouvir? 
Como fazer tudo de bom novamente? 
Como segurar tudo isso? 
Como evitar se desmoronar?

E, de repente, as perguntas não podem ser presas, elas se fragmentam em um milhão de silêncios, porque um pequeno pássaro pousou no caminho em frente a você, pousado no aqui e agora, não naquele em que você está buscando suas respostas. 
Seus olhos se encontram com os dele, e você sabe que tudo está bem no universo....

As perguntas serão respondidas ou não, e as soluções aparecerão ou não aparecerão no momento perfeito, porque você estará disponível para elas, já que você está disponível agora para este pássaro pequenino e inesperado....

Talvez hoje não seja um dia para respostas e certezas inabaláveis, é um dia para o canto dos pássaros e ficando perto das perguntas, enquanto elas caminham com você por caminhos familiares nas manhãs de primavera....

17 de fevereiro de 2018

Observar é a chave - Osho


"Não julgue, porque no momento em que começar a julgar você esquecerá de observar. E isso acontece porque no momento em que começa a julgar — “Esse pensamento é bom” — justamente nesse espaço de tempo você não estará observando. Você começou a pensar, envolveu-se. Não conseguiu permanecer alheio, parado à margem da estrada, só observando o tráfego.

Não se torne um participante avaliando, julgando, condenando; nenhuma atitude deve ser tomada a respeito do que está se passando na sua mente. Você precisa observar os seus pensamentos como se fossem nuvens passando no céu. Você não faz julgamentos sobre as nuvens — essa nuvem negra é ruim e essa nuvem branca parece um sábio. Nuvens são nuvens, elas não são nem boas nem ruins.

O mesmo acontece com os pensamentos — são meras ondinhas passando na sua mente. Observe-os sem julgá-los e você terá uma grande surpresa. Quando a sua observação se tornar constante, os pensamentos passarão a ficar cada vez mais esparsos. A proporção é exatamente a mesma; se você estiver com 50% da atenção na observação, então 50% dos seus pensamentos vão deixar de existir. Se estiver com 60% da atenção, então só restarão 40% dos pensamentos. Quando você for 99% pura testemunha, só de vez em quando surgirá um pensamento solitário — 1 % passando na estrada, não haverá mais tráfego nenhum. Esse tráfego da hora do rush não existirá mais.

Quando você deixar de lado 100% dos julgamentos, passará a ser apenas uma testemunha; isso significa que você se tornou simplesmente um espelho — porque o espelho nunca faz nenhum julgamento. Uma mulher feia mira-se no espelho e ele não faz nenhum julgamento. Uma mulher bonita mira-se no espelho e não faz nenhuma diferença. Quando não há ninguém diante dele, o espelho tem a mesma pureza de quando há alguém sendo refletido em sua superfície. Nem o reflexo o afeta nem o não-reflexo.

O testemunhar se torna um espelho. Essa é a maior conquista da meditação. Se consegui-la, você já estará na metade do caminho, pois trata-se da parte mais difícil. Agora você sabe o segredo, e o mesmo segredo tem simplesmente de ser aplicado em outros objetos.

Dos pensamentos você precisa passar para experiências mais sutis ligadas às emoções, aos sentimentos, aos estados de espírito. Da mente para o coração, nas mesmas condições: nenhum julgamento, só testemunho. E, surpresa, a maioria das suas emoções, sentimentos e estados de espírito começarão a se dissipar. Agora, quando está sentindo tristeza, você está realmente triste, está tomado de tristeza. Quando está com raiva, ela não é parcial. Você fica cheio de raiva; cada fibra do seu ser vibra de raiva.

Observando o coração, a impressão que se tem é que agora nada mais pode possuir você. A tristeza vem e vai embora, você não fica triste; a felicidade vem e vai embora, você também não fica feliz. Seja o que for que se passe nas camadas mais profundas do coração, isso não afeta você. Pela primeira vez você tem uma amostra do que seja maestria. Não é mais um escravo à mercê da vontade alheia; nenhuma emoção, nenhum sentimento, ninguém pode mais perturbá-lo com ninharias."

Osho em Saúde Emocional: Transforme o Medo, a Raiva e o Ciúme em Energia Criativa
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