22 de março de 2012

Universo autoconsciente - Amit Goswami-1


"No idealismo monista, a consciência, e não a matéria, é fundamental. Tanto o mundo da matéria quanto o dos fenômenos mentais, como os pensamentos por exemplo, são criados pela consciência.

Além das esferas material e mental ( que juntas formam a realidade imanente ou seja, o mundo das manifestações) o idealismo postula um reino transcendente, arquetípico de idéias como origem dos fenômenos materiais e mentais. Trata-se de uma filosofia Unitária. Quaisquer subdivisões, como imanente, transcendente situam-se na consciência. A consciência é portanto a realidade única e final.

No Ocidente, a filosofia monista teve em Platão seu proponente mais conhecido.(...) Platão imagina seres humanos sentados imóveis numa caverna, em tal posição que estão sempre voltados para a parede. O grande universo no lado de fora é um espetáculo de sombras projetadas na parede, e nós somos observadores de sombras. A realidade autêntica está às nossas costas, na luz e formas arquetípicas que lançam sombras na parede. Nessa alegoria, os espetáculos de sombras são as manifestações imanentes irreais na experiência humana, de realidades arquetípicas que pertencem a um mundo transcendente. Na verdade a luz é a única realidade, porquanto ela é tudo que vemos. No idealismo monista, a consciência é como a luz na caverna de Platão.

Estas mesmas idéias básicas reaparecem com grande frequência na literatura idealista de numerosas culturas. Nos textos do Vedanta da Índia, a palavra sânscrita nama é usada para denotar arquétipos transcendentes e rupa sua forma imanente. Para além de nama e rupa brilha Brahman, a Consciência Universal, a única sem um segundo, o fundamento de todo Ser. "Todo este universo sobre o qual falamos é pensamos, nada mais é do que Brahman. Brahman existe além do alcance de Maya ( ilusão). Nada mais existe"

Na filosofia budista, os reinos material e das idéias são chamados de Nirmanakaya e Sambhogakaya respectivamente, mas acima deles há a a luz da consciência única, Dharmakaya, que ilumina a ambos. E na realidade só há Dharmakaya. "Nirmakaya é a aparência do corpo de Buda e de suas atividades inescrutáveis. Sambhogakaya possui potencialidade vasta e ilimitada. O Dharmakaya de Buda está livre de qualquer percepção ou concepção de forma".

Talvez o símbolo taoísta do Yin e do Yang seja em geral mais conhecido do que seus equivalentes indianos. O Yang, claro, considerado como símbolo masculino, define o reino transcendente, e o Yin, escuro, considerado como símbolo feminino, o imanente. Notem a relação figura-base: "Aquilo que permite ora as trevas, ora a luz é o Tao",o uno que transcende suas manifestações complementares.

Na Kabbalah judaica descreve duas ordens de realidade a transcendente e a imanente. De acordo com o Zoar "se o homem contempla as coisas em meditação mística tudo se revela como Uno".

No mundo cristão os nomes do reino transcendente e imanente - céu e terra- são partes do nosso vocabulário diário. (...) Além dos reinos do céu e da terra, há a Divindade, o Rei dos reinos. Os reinos, não existem separados do Rei; o Rei é os reinos.
Dionísio, o idealista cristão escreve : "Ela ( a consciência- o fundamento do ser) está em nosso intelecto, alma a corpo, no céu e na terra, enquanto permanece a mesma em Si Mesma. Ela está simultaneamente em, a volta e acima do mundo, super-celestial, um sol, uma estrela, fogo, água, espírito, orvalho, nuvem, pedra, rocha, tudo que há".

Em todas essas descrições, note que se diz a consciência única nos chega através de manifestações complementares: idéias e formas, nama e rupa, Sambhgakaya e Nirmakaya, yang e yin, céu e terra. Essa descrição complementar constitui um aspecto importante da filosofia idealista.
Quando olhamos em volta, vemos geralmente apenas a matéria. O céu não é um objeto tangível de percepção comum. Mas não é só isso que nos leva a referirmo-nos a matéria como real, mas também o que nos induz a aceitar a filosofia realista, que proclama que a matéria ( e sua forma alternativa, a energia) é a única realidade, Numerosos idealistas sustentam, contudo, que é possível experienciar diretamente o céu se procurarmos além das experiências mundanas do dia a dia; Os indivíduos que fazem essas alegações dão denominados místicos, que oferecem provas experienciais do idealismo monista.

O realismo nasceu de nossas percepções da vida diária. Em nossas experiências do dia a dia no mundo, é abundante a prova de que coisas são materiais e separadas umas das outras e de nós. Evidentemente, experiências mentais não se ajustam bem a essa formulação. Experiências dessa ordem como o pensamento, não parecem ser materiais, que é o motivo porque criamos a filosofia dualista que relega mente e corpo em domínios separados. Os defeitos do dualismo são bem conhecidos, principalmente por não conseguir explicar como uma mente separada, não-material, interage com um corpo material. Se há essas interações mente-corpo, terá que haver trocas de energia entre os dois domínios. Em um sem-número de experiências descobrimos que a energia do universo material em si permanece sempre constante ( a lei da conservação de energia). Tampouco qualquer evidência demonstrou que energia seja perdida para o domínio mental ou dela retirada. De que maneira pode isso acontecer, se interações acontecem entre os dois domínios?

Os idealistas embora sustentem que a consciência é a realidade primária, e portanto atribuam valor às nossas experiências subjetivas, mentais, não sugerem que a consciência seja a mente. (Neste livro a distinção entre mente e consciência é necessária e importante) Em vez delas, sugerem eles que os objetos materiais ( como uma bola por exemplo) e os objetos mentais ( como pensar em uma bola ) são ambos objetos NA consciência. Na experiência, há também o sujeito, aquele que experiencia.
Qual a natureza dessa experiência? Esta é uma pergunta da mais alta importância no idealismo monista.

De acordo com o idealismo monista, a consciência do sujeito em uma experiência sujeito-objeto é a mesma que constitui o fundamento de Todo Ser. Por conseguinte, a consciência é Unitiva. Só há um sujeito-consciência e somos essa consciência. "Tú és isso!" dizem os livros sagrados hindus, conhecidos coletivamente como UPANISHADS." [Continua]
Amit Goswami em O Universo Autoconsciente

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