12 de maio de 2014

Osho fala sobre Buda 1/4


"Gautama Buda representa o próprio cerne da religião. Ele não é o fundador do budismo - o budismo é um subproduto - , mas o início de um tipo totalmente diferente de religião no mundo. É o fundador de uma religião sem religião, e não propõe a religião, mas a religiosidade, o que vem a ser uma mudança radical na história da consciência humana. Antes de buda havia religiões, mas nunca religiosidade pura. O homem ainda não estava maduro. Com Buda, a humanidade entra na idade madura. Nem todos os seres humanos entraram nela, é verdade, mas Buda indicou o caminho; Buda abriu a porta sem porta.(...)

Gautama Buda deu início a uma espiritualidade que não é repressiva, nem ideológica. O que é um fenômeno muito raro. A espiritualidade do tipo comum é muito repressiva. Ela precisa de repressão. Não transforma as pessoas, apenas as aleija. Não as liberta, escraviza-as. (...) Lembre-se disso: Buda não é repressivo. E, se você considera repressivos os monges budistas, é porque eles não entenderam Buda. Introduziram sua própria patologia em seu ensinamentos.

Buda não é ideológico. Não fornece uma ideologia porque todas as ideologias são da esfera da mente. E se elas pertencem à mente, não podem nos conduzir para além da mente. Nenhuma ideologia é capaz de lançar pontes para o território além da mente. É preciso deixar de lado todas as ideologias e só então, a mente também ficará de lado.

Buda tampouco acredita em ideais - pois todos os ideais criam tensão e conflito no homem. Eles dividem, geram angústia. Somos uma coisa, eles querem que sejamos outra. Entre esses dois pontos, ficamos divididos, dilacerados. Os ideais geram miséria, esquizofrenia. Quanto mais ideais forem, mais as pessoas serão esquizofrênicas, divididas. Só uma consciência não ideológica pode evitar a divisão. Como poderemos guardar silêncio, como poderemos entender a paz e a quietude?

A pessoa ideológica está constantemente lutando consigo mesma. A cada momento existe conflito. Ela vive em conflito, vive na confusão, pois não é capaz de decidir quem é realmente - o ideal ou a realidade? Ela não confia em si mesma, passa a ter medo de si mesma, perde a confiança. E quando alguém perde a confiança, perde toda a glória. Pode então tornar-se escravo de qualquer um - de qualquer padre, qualquer político. Está prontinho para cair em alguma armadilha. (...)

Buda ofereceu um modo de vida que não é repressivo nem ideológico. Por isso é que não fala de Deus, não fala do céu, não fala de nenhum futuro. Não nos apresenta nada a que possamos nos agarrar, o que faz é tomar-nos tudo. Nos toma tudo, até o nosso eu. Vai tirando tudo, e no fim das contas tira até a ideia do eu, do ego. Deixa para trás apenas o puro vazio. O que é muito difícil. (...)

Buda acaba com todos os ideias, todo o futuro e finalmente leva também a última coisa que para nós é muito, muito difícil entregar: leva o nosso próprio eu. E deixa para trás um vazio puro, inocente, virgem. A esse vazio virgem dá o nome de Nirvana. O Nirvana não é uma meta, é apenas o nosso vazio. Quando largamos para trás tudo que acumulamos, quando deixamos de acumular tesouros, quando já não somos avarentos e apegados, de repente surge esse vazio. Ele estava lá desde sempre.

O vazio está aí. Nós acumulamos muito lixo, de modo que o vazio não é visível. É exatamente como nossa casa: podemos estar sempre acumulando coisas, até que parece não haver mais espaço. Chega o dia em que fica difícil até que parece não haver mais espaço. Mas o espaço não foi para lugar nenhum; pense bem, medite nisso: o espaço não foi a lugar nenhum; pense bem, medite nisso; o espaço não foi a lugar nenhum. (...)

Assim também é o vazio interior, o seu Nirvana, o seu nada. Buda liberta, em vez de coagir. Buda ensina como viver - não em função da alguma meta, não para alcançar o que quer que seja, mas para ser feliz aqui e agora. Ele ensina como viver na consciência das coisas. Não que a consciência nos proporcione alguma coisa: a consciência não é um meio para atingir nada. É um fim em si mesma, ao mesmo tempo o meio e o fim; seu valor é intrínseco.

Buda não nos ensina coisas do outro mundo. É preciso entender bem isso. (...) O outro mundo não passa de um modelo melhorado do mesmo mundo em que vivemos agora. (...) De modo que o outro mundo não é tão diferente assim deste mundo, e nem pode ser. É uma continuidade. Ele sai da nossa mente; é um jogo da nossa imaginação. (...)
Buda não nos fala do outro mundo, ele simplesmente nos ensina como estar aqui neste mundo. Como nos manter alerta, conscientes, atentos, para que nada invada o nosso vazio; para que possamos viver aqui sem sermos contaminados nem poluídos; para que possamos estar no mundo, sem que o mundo esteja em nós. (...)

Lembre-se: você só é na medida em que é consciente. Se quiser ser mais, seja mais consciente. A consciência propicia o ser. A inconsciência o leva embora. Quando fica bêbado, você perde o ser. Quando adormece profundamente, também perde o ser. Ainda não observou? Quando está atento, você desfruta de uma qualidade diferente - está centrado, enraizado. Quando atento, você sente a solidez do seu ser, é quase tangível. Quando inconsciente, vagando daqui para ali, com sono, é menos sua capacidade de ser. Ela está sempre na proporção direta da consciência.

Toda mensagem de Buda, portanto é que sejamos conscientes. E por nenhum outro motivo especial, simplesmente por estar consciente, pois a consciência propicia o ser, a consciência o cria. E cria um você tão diferente do que você é que você nem pode imaginar. Um você do qual o "eu" desapareceu, no qual não existe a ideia do eu, nada que o defina...um puro vazio, um infinito, o vazio sem limites. 
[ continua...]
Osho em Encontro com Pessoas Notáveis.

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