16 de dezembro de 2017

Totalidade, abandono e beleza - J.Krishnamurti


"Por certo, para termos aquela beleza interior, deve haver completo “abandono” (de si próprio), o sentimento de completa ausência de prisões, restrições, defesas, resistência; mas, esse “abandono” se torna caótico quando desacompanhado da austeridade. Mas, sabemos o que significa ser austero, satisfazer-se com pouco e não pensar em termos de mais?

O “abandono” deve estar acompanhado de profunda austeridade — da austeridade que é extraordinariamente simples, porque a mente que está adquirindo, ganhando, não está pensando em termos de mais. É a simplicidade nascida do “abandono”, mais a austeridade, que produz o estado de beleza criadora. Mas, se não existe amor, vocês não podem ser simples, não podem ser “austero”. Podem falar a respeito de simplicidade e austeridade, mas, sem amor, elas são meramente uma forma de compulsão e, por conseguinte, não pode haver “abandono”. Só tem amor aquele que “se abandona”, que se esquece completamente de si próprio e, dessa forma, faz nascer o estado de beleza criadora.

A beleza, é bem óbvio, inclui também a beleza da forma; mas, se não há beleza interior, a mera apreciação sensorial da beleza da forma conduz à degradação, à desintegração. Só há beleza interior ao sentirem verdadeiro amor pelas pessoas e por todas as coisas da Terra; e, com esse amor, vem um extraordinário sentimento de consideração, de vigilância, de paciência. Vocês podem ter uma técnica perfeita, como cantor ou poeta, podem saber pintar ou concatenar palavras, mas, sem essa palavra criadora, interior, o talento de vocês será muito pouco significativo.

Infelizmente, quase todos estamos nos tornando meros técnicos. Passamos em exames, adquirimos tal ou tal técnica, a fim de ganharmos o nosso sustento; mas, o adquirir técnica ou desenvolver capacidades, sem dar atenção ao estado interior, é produtivo de fealdade e de caos no mundo. Se despertamos a beleza criadora, interiormente, ela se expressa exteriormente, e há, então, ordem. Mas isso é muito mais difícil do que inquirir uma técnica, porque significa completo “abandono de nós mesmos”, significa sermos sem medo, livres de constrangimento, sem resistência, sem defesa; e só podemos abandonar a nós mesmos dessa maneira, quando há austeridade, quando há o sentimento de grande simplicidade interior. Exteriormente podemos ser simples, usar poucas roupas e nos satisfazer com uma só refeição ao dia; mas, isso não é austeridade. Há austeridade quando a mente é capaz de infinita experiência: quando tem experiência e ao mesmo tempo se conserva muito simples. Mas só pode nascer esse estado quando a mente já não está pensando em termos de mais, em termos de adquirir ou “vir a ser” algo por meio do tempo.

O que estou dizendo poderá ser, para vocês, difícil de compreender, mas é verdadeiramente importante. Vejam, os técnicos não são criadores. E há cada vez mais técnicos no mundo, pessoas que sabem o que fazer e como fazê-lo, mas que não são criadoras. Na América, há máquinas calculadoras capazes de resolver em poucos minutos problemas matemáticos que um homem, trabalhando dez horas por dia, levaria cem anos para resolver. Tão extraordinárias máquinas estão sendo criadas! Mas, as máquinas jamais serão criadoras; no entanto, os entes humanos estão se tornando cada vez mais semelhantes a máquinas. Mesmo quando se rebelam, sua revolta se verifica dentro dos limites da máquina e não é, por conseguinte, revolução.

Muito importa, pois, descobrir o que é ser criador. Você só pode ser criador quando há “abandono”; isso significa, em verdade: quando não há sentimento de compulsão, medo de “não ser”, não ganhar, não alcançar. Há, então, grande austeridade, simplicidade e, ao mesmo temo, amor. Essa totalidade é beleza, estado criador. "

J. Krishnamurti em A cultura e o problema humano

11 de dezembro de 2017

Testemunhar - Osho


"Não sou eu que faz nem o que experimenta.
Sou apenas uma testemunha de toda manifestação.
Por estar próxima a eles é que o corpo e tudo o mais parecem conscientes 
e funcionam  de acordo com essa consciência.
Sou o imutável, o eterno.
Sou a morada perpétua da bênção, da pureza e do conhecimento.
Eu Sou todo-poderoso.
Sou a alma pura que como testemunha
se acha em todos os seres sensíveis.
Quanto a isso, nenhuma dúvida resta."
~Sarvasar Upanishad~


"O eu-testemunha, jamais é sentido. Sempre percebemos uma certa identidade, uma certa identificação. E a consciência  que testemunha é a realidade. Por que isso acontece? E como?

Você está sofrendo - o que realmente acontece dentro de você? Analise o fenômeno todo. O sofrimento está ali e há a consciência que está ali. Estes são os dois pontos a considerar: a presença do sofrimento e a consciência da presença do sofrimento. Mas não existe espaço entre as duas coisas, por isso, o que sinto é " Eu estou sofrendo." E não só: cedo ou tarde, isso se transforma em "Eu sou sofrimento".

"Eu sou sofrimento, eu estou sofrendo, eu estou consciente de que sofro" - esses são três estados diferentes, muito diferentes. O rishi diz: "Estou consciente de que sofro". Isso é possível quando se transcende o sofrimento. A consciência o transcende. Você é diferente dele, há entre você e ele uma profunda separação. Na verdade, nunca houve qualquer vínculo entre ambos; o vínculo se estabeleceu somente por causa da proximidade, por causa da íntima contiguidade de sua consciência e do que acontece ao redor.

A consciência está muito próxima; quando você não sofre, ela se posta nas imediações. Tem de ser assim, do contrário o sofrimento não pode ser evitado, a dor não pode ser curada. A consciência precisa estar por perto para sentir a dor, conhecê-la, percebê-la. No entanto, justamente por causa dessa proximidade, você se identifica com ela, torna-se um com ela. É, de novo, uma medida de segurança, de proteção natural. Quando há dor, você tem de estar nas vizinhanças, quando há dor, sua consciência precisa correr em direção a ela - para senti-la ou evitá-la.
Você está andando pela rua e vê uma cobra à sua frente - toda sua consciência se transforma num pulo. Nem um segundo pode ser perdido, sequer para pensar no que fazer. Não há espaço entre a percepção e a ação. Você precisa estar muito perto, do contrário isso não acontece. Quando seu corpo sofre dor, doença, desconforto, você precisa estar perto; do contrário, a vida se interrompe. Se você estiver longe e não sentir a dor, morrerá. A dor tem de ser sentida imediatamente, sem intervalo. A mensagem tem de ser recebida na hora, para que sua consciência corra até o local e faça alguma coisa. Por isso, a contiguidade é necessária.

Todavia, em decorrência dessa necessidade, outro fenômeno ocorre - muito perto você se torna um; muito perto, você começa a sentir que "isto sou eu, esta dor sou eu, este prazer sou eu". Em consequência da proximidade, ocorre identificação; você se torna cólera, amor, sofrimento, alegria.
O rishi ensina que há duas maneiras de você se dissociar dessas falsas identidades. Você não é o que pensava, sentia, imaginava, projetava.

Você é pura e simplesmente, o fato de estar consciente. O que quer que aconteça, permanece apenas consciência. Você é consciência, uma identidade que não pode ser rompida. Que não poder ser negada. Tudo o mais pode ser negado, repelido. A consciência  continua sendo o substrato último, a base primordial. Você não pode negá-la, repeli-la, dissociar-se dela.

Eis o processo: aquilo que não pode ser jogado fora, que não pode ser isolado de você é você; aquilo que pode ser isolado de você não é você. A dor se apresenta; um momento depois pode desaparecer, mas você não. A alegria veio e se foi; existia e não existe mais - mas você existe. O corpo é jovem, e depois envelhece...Tudo vem e vai; os convidados entram e saem, mas o anfitrião fica onde está.

Por isso os místicos zen dizem: não se perca na multidão dos convidados. Lembre-se de que você está na condição de anfitrião e de que essa condição é consciência. O anfitrião é a consciência que observa. Qual é o elemento básico que permanece sempre o mesmo em você? Seja apenas ele e rompa a identificação com tudo aquilo que vem e vai. Sucede, porém, que nos identificamos com os convidados: o anfitrião está tão ocupado com eles que esquece de si mesmo.(...)

Isso acontece com todos nós. O anfitrião se perde, é esquecido a todo instante. O anfitrião é o seu eu-testemunha. A dor vem e o prazer vem atrás, há desespero e alegria. E, a todo instante você se identifica com o que vem; torna-se o convidado. Não se esqueça do anfitrião. Em presença do convidado, lembre-se do anfitrião.

Há muitos tipos de convidados, os agradáveis, os insuportáveis - convidados de quem você gosta, convidados de quem você não gosta, convidados que gostaria de receber, convidados que gostaria de evitar. Mas são todos convidados.
Lembre-se do convidado. Nunca se esqueça dele. Concentre-se nele. Permaneça no seu papel de anfitrião. Assim haverá separação, espaço, intervalo; a ponte caiu. No momento em que a ponte cai, o fenômeno da renúncia ocorre. Então você está nele, não é ele. Então você está no convidado sem deixar de ser anfitrião. Você não precisa fugir do convidado, não há nenhuma necessidade disso.

Assim, você pode estar na multidão e sozinho. Se não conseguir ficar sozinho na multidão, jamais conseguirá ficar sozinho em parte alguma, pois a capacidade de isolar-se na multidão é necessária para isolar-se quando realmente não houver ninguém por perto. De outro modo, se você não puder estar sozinho na multidão, a multidão ficará com você quando estiver sozinho. A mente se tornará ainda mais lotada, já que tende a sentir mais a ausência que a presença.

Se a criatura amada estiver presente, você pode esquecê-la com muita facilidade. Mas se não estiver, não consegue esquecê-la. A mente tende a sentir mais a ausência porque, com a ausência vem o desejo. Então, a mente sente a ausência, do contrário não poderia desejar. Se você esquecer a ausência, o desejo se tornará impossível. Assim, esquecemos as presenças e continuamos sentindo ausências. O que não existe é desejado; o que existe é ignorado.
Nesse caso, quando estiver sozinho, a multidão o acompanhará, o seguirá. Se fugir dela, ela o perseguirá. Portanto, não tente escapar - é impossível. Fique onde está, mas não se concentre no convidado, concentre-se em você mesmo. Lembre-se do anfitrião, que é você em toda a sua pureza. Não se apaixone pelo convidado nem o odeie.

Realmente, o termo apaixonar-se ( to fall in love ) é muito bom. Por que "cair" ( to fall ) ? Por que não levantar-se (to rise ) ? Ninguém se levanta no amor, todo mundo cai no amor. Por quê? Qual o motivo dessa queda? Realmente, no momento em que ama ou odeia, você cai de sua condição de anfitrião. Renega essa condição. Torna-se o convidado. Isso é sofrimento, isso é confusão, isso é escuridão.

Onde quer que você esteja - fazendo alguma coisa, não fazendo, sozinho, na multidão, ativo, inativo - não se esqueça do anfitrião. "O que acontece, seja lá o que for, é apenas o convidado e eu sou o anfitrião". E não se identifique com nada. A cólera entra; lembre-se: você é o anfitrião, a cólera não passa de um convidado. Ela entrou e vai sair. (...)

Portanto, concentre-se em seu anfitrião e lembre-se: nada acontece a você. Tudo o que acontece são os convidados, os visitantes; eles vêm e vão. E é bom que façam isso: assim, você se enriquece, se torna mais maduro. Mas não os siga, não se deixe envolver por eles, não se torne um com eles. Não ame, nem odeie, não se identifique com nada.
Permaneça o anfitrião, pois assim o acontecimento final sobreviverá, a explosão final se tornará possível.
Depois que a alma-testemunha for conhecida, você nunca mais será o mesmo. O mundo inteiro desaparecerá e você se transfundirá numa nova dimensão de bem-aventurança. Identificação é sofrimento; não identificação é bem-aventurança.
Amar ou odiar o convidado é sofrimento. Transcendê-los e concentrar-se em si mesmo é bem-aventurança."
Osho em Os Upanishads, a essência de seus ensinamentos.


Hoje o amado Osho estaria completando mais um aniversário.
Deixo aqui a minha sincera homenagem, em profunda gratidão 
por tanta luz, sabedoria, alegria  e amor
compartilhados com milhões de pessoas
ao longo de sua vida...

Hare Om Osho!
Namastê!

2 de dezembro de 2017

Despertar - Mooji


"Quando ficamos perplexos com a vida... " Oh isto está acontecendo comigo e eu não sei o que fazer...

O que é seu 'eu"? Esse "eu" é pessoal. Esse é a personalidade. E esse é o lugar onde a consciência está vivendo na maior parte do tempo. Vamos colocar assim:

Você é o EU SOU. EU SOU é o princípio divino no corpo.

Você sabe quão sagrado o "eu" é?

Não está aqui apenas para pagar o aluguel... isso é o que estou dizendo a você...não está aqui para estudar livros; é uma maneira em que pode se expressar... pode provar todos os sabores, quer provar como é... a tristeza, é assim, quero provar... Mas ao fazer isso está meio que mais e mais hipnotizado pela própria fascinação, e esquece-se o que é de verdade. Então vem a confusão... O que estou fazendo aqui? Oh meu Deus! Não gosto mais disso... E com essa dor, se é impulsionado para descobrir... volte para onde você veio... Não lembro de onde eu vim! Certo, você recomeça nessa direção e olha... isso é o que está acontecendo, entende?

Então podemos dizer: Sim, eu sei não sou isso...eu sei que não sou aquilo, mas você sabe..

Você se apega aos seus doces, isso é o que eu estou dizendo. Se você sabe, então você não vai ser limitado por nada, isso é conhecimento. Você vai ver, sim, experimentei o sabor e não quer dizer que eu não me importe com a manifestação, mas não me incomodo com o jeito que ela é. Estou descobrindo que é um tipo de aparência , às vezes é morna, às vezes é fria, às vezes é isso, às vezes é aquilo... de um modo isso é parte do que faz a manifestação ser o que ela é... o jogo dos opostos inter-relacionados; é o sabor que estou provando.

Mas quem sou eu? O provador. Se você sabe quem é o provador então conhece todos os sabores. Os sabores são emanados a partir do provador, você está aproveitando seu Ser, que é projetado na diversidade das outras coisas, entende?

Então isso é o que estou perguntando: O que você quer? Dirijo-me a você como consciência. Olá o que você quer? E alguns dizem: apenas quero permanecer como eu sou.

Eu digo: Como você está? A pessoa diz: Não tenho como saber, apenas SOU.

Algo assim deve acontecer. Você diz: Sim, bem, você sabe... perdi meu emprego e quero...

Sim, talvez vamos olhar e ver se isso já é o que você é. É apenas disso que você desperta.

Por que isso é chamado de despertar? Porque você está despertando disso. Você está despertando da identificação errada. É apenas isso.

Despertar significa acordar para o que tenho sido eternamente e Sou, e É.

Você está acordando do sonho de um mal entendido, mas também amamos o sabor do sonho. Ás vezes mesmo em um sonho você acorda, e é tão bom, que você quer voltar para o sonho novamente. Estamos fazendo isso, você sabe?

Você quer ver como termina, você quer voltar... você vai um pouco mais longe hein? ( risos )
Mooji em Satsang

25 de novembro de 2017

Ser Consciente - Sambodh Naseeb


"Este ensinamento simplesmente mostra claramente a distinção entre Ser Ego e Ser Consciência, em outras palavras, faz a distinção do que é real e do que não é. Muitas vezes chamado de Caminho Direto, é o reconhecimento de que somos todos pura consciência sem fronteiras, uma inteligência sem forma, onde todas as formas podem aparecer infinitamente. 

Do mesmo modo que o oceano e as ondas, essa inteligência se manifesta para si mesma em um reflexo chamado mente. Dessa forma, aparece o mundo de maya, o mundo da aparente dualidade, o mundo dos muitos, dos seres diversificados, dos aparentes espíritos, do ego, da separação entre alegria e tristeza, entre iluminação e ignorância. Todos os opostos são aparentes, e fazem parte do mundo da onda.

No mundo da onda tudo existe no tempo e mudam de lugar. Tudo é impermanente. É o mundo do movimento, da mudança. Já o mundo do oceano é profundo, quieto, silencioso. O fundo do mar é cheio dos mistérios e surpresas. 
O oceano está em toda onda. A onda veio dele. 

A onda é uma forma diferente do oceano se manifestar. Tudo que vemos aqui no nosso mundo é um grande filme cósmico que parece acontecer aos seres que moram aprisionados no tempo. Mas tudo isso é apenas um movimento da energia cósmica, como num filme, criando os aparentes mundos e os aparentes seres que vivem nesses mundos. É possível se apegar às histórias do eu sobre sofrimento, suas frustrações, seus medos. Ser uma pessoa é estar destinado a mudar. Ser Consciência é simplesmente SER. 

Se sofrimento acontece, é isto. Se alegria acontece, é isto. Você não cria personalidade fixa, rígida. Você é simplesmente solto, fluido, como a água, pode tomar várias cores. E sabe profundamente que jamais nenhuma cor e nenhum sofrimento toca seu mundo interior de paz. Se o sofrimento é parte do sonho, algo ter feito algum sofrimento em você também faz parte do mundo de sonho.


Mas o oceano cria a onda para a onda se desmanchar e virar outra onda. Esta é a dança do oceano. Na verdade, o oceano sabe que nada é perdido quando uma onda desaparece. É o próprio movimento do oceano que faz com que uma onda suba e outra onda desça. Uma pessoa está sempre com medo das mudanças da vida. Ela tem de evitar que a vida se desmanche, e como ela é feita de cada pedacinho da vida, quando alguém que amamos vai embora, sentimos como se fosse dentro da gente. E sentimos assim porque na verdade somos um pouco daquilo. Só existe consciência. Aquela pessoa nos constituiu também.

A pessoa tenta evitar a todo custo qualquer demolição. E o que acontece a cada momento? Algo vai sendo esculpido, queira ou não, como rocha bruta, vai se transformando numa nobre pérola, numa divindade, ou em algo indizível. Está no desenho da vida demolir você de qualquer jeito. 


A ideia de “você” vai ser demolida sempre. Porque é falsa. Tudo é falso. E a sua mente tenta ser forte para aguentar a pressão. É o que todos tentam fazer. Seja forte, dizem. Mas há uma outra via para olhar isto. 

Há aqueles que simplesmente se entregam ao fluxo. 

O ego resiste à demolição, enquanto que a consciência se aproveita de todas as experiências para soltar e soltar. Toda a fala, todo movimento, toda palavra e todo silêncio, estão a serviço do Amor Consciente. A serviço de Ser Consciente.
Sambodh Naseeb

18 de novembro de 2017

Rompendo o ciclo da violência - Jeff Foster


“Se alguém te trata com crueldade, é muito provável que esse alguém tenha sofrido um tratamento semelhante de outros no passado.

E que só esteja repetindo padrões inconscientes tentando encontrar um amor que não aparece.

Tudo isso tende a se repetir até que a pessoa desperte do pesadelo de sua projeção, e até que reconheça o que você é, o que ela é, o que todos nós somos.
É uma desculpa?
Não.

Uma forma de começar a sentir compaixão por eles, de deixar de tomar seu comportamento como algo muito pessoal e sério, para começar a romper o ciclo da violência?
Talvez.
E esse 'talvez' é tudo quando se trata de amarmos uns aos outros.”

11 de novembro de 2017

Ego e Sofrimento - Eckhart Tolle


"Uma pessoa dominada pelo ego, não reconhece o sofrimento como sofrimento - ela o considera a única resposta adequada em qualquer tipo de situação.

O ego, na sua cegueira, é incapaz de ver a dor que inflige a si mesmo e aos outros.

A infelicidade é uma doença 'mental-emocional' que atingiu proporções epidêmicas. É o equivalente subjetivo da poluição ambiental do planeta.

Estados como raiva, ansiedade, rancor, ressentimento, descontentamento, inveja e ciúme, entre outros, não costumam ser vistos como o que são, e sim como condições totalmente justificadas.

Além disso, há uma compreensão errônea de que eles não são criados pela própria pessoa, mas por alguém ou por um fator externo.

'Eu o considero responsável pela minha dor.' Isso é o que o ego deixa subentendido.

O ego não consegue distinguir entre uma situação e a sua interpretação a respeito dela, sua reação a ela.

Podemos dizer 'Que dia horrível!', sem atentarmos para o fato de que o frio, o vento e a chuva ou qualquer elemento ao qual estejamos reagindo não são horríveis. Eles são como são.

O que é horrível é a nossa reação, a resistência subjetiva a eles e a emoção que é criada por essa resistência. (...)

Mais do que isso, o ego sempre interpreta mal o sofrimento porque, até determinado ponto, ele se fortalece por meio desse estado negativo."

Eckhart Tolle em O Despertar de uma nova consciência.

4 de novembro de 2017

Meditação - Jeff Foster


"A verdadeira meditação não é um 'fazer', não é uma tarefa que deve ser cumprida ou algum processo que leve o faminto buscador para uma meta ou um estado futuro, é mais o tipo de fascinação, pura, que pode sentir uma criança.

Uma fascinação com cada pensamento, com cada sensação, com cada sentimento, com cada som, com a fascinação mesma, com cada coisa que seja neste momento.
É um radical estar aqui, e perceber, em completa fascinação, como surge e desaparece o desejo de chegar 'lá'.

É estarmos conscientes de cada engenhosa tentativa do pensamento para escapar deste momento; notando que inclusive estes desejos são radicalmente aceitos no tranquilo e aberto espaço que somos; e dar-nos conta que inclusive 'eu sou quem se dá conta' ou 'eu sou quem controla' são pensamentos que, como tudo mais, tem permissão absoluta de surgir e desaparecer aqui.

Esta é a meditação sem meditador, e é a luz que nunca se apaga.

A verdade da meditação é muito diferente do sonho da meditação.

Muitas vezes entramos em meditação esperando felicidade, alegria, paz eterna, o fim de toda dor.

Mas a meditação tem sua própria inteligência, seu próprio caminho.

As vezes a dúvida, a tristeza, inclusive a decepção querem dançar conosco durante a meditação.

Deixe-os passar.

De lugar a eles.

Deixe que a meditação seja um grande campo no qual TODO pensamento, som, sensação, urgência, impulso, fantasia sejam bem vindos a entrar, permanecer por um tempo, e desaparecer.
Deixe que o sonho da meditação se rompa em mil pedaços.
Deixe que os planos venham abaixo.
Deixe que as expectativas se desvaneçam.

Deixe que a meditação seja o que é:
um espaço que acolhe tudo, uma imensidão que permite tudo, assim como o céu permite o clima, assim como o sol brilha sobre 'bons' e 'maus' da mesma forma, indiscriminadamente, oferecendo sua luz gratuitamente.

O sonho da meditação é o controle.
A verdade da meditação é o amor."

28 de outubro de 2017

A verdadeira escuta - J.Krishnamurti


"Permiti-me sugerir-vos escutardes o que estou dizendo sem emitir julgamento, sem dizer que é impossível.

Por favor, não traduzais o que se está dizendo nos termos dos vossos próprios conhecimentos, nem o escuteis em atitude defensiva, comparando-o com o que outros vos disseram ou com o que lestes nos livros sagrados — que não são mais sagrados do que outro livro qualquer.

Escutar é uma tarefa bem difícil; em geral, nunca prestamos atenção senão à voz de nosso próprio pensar, de modo que, na realidade, nada nos é comunicado.

Escutar com julgamento, comparando o que se ouve com o que já se sabe ou leu, é uma forma de distração.

Mas, se sois capaz de escutar sem comparação, com atenção natural, então o próprio ato de escutar é um ato de meditação que, indubitavelmente, gera profunda transformação.

Tentai de vez em quando observar-vos, para ver se escutais realmente alguma coisa, o que vossos amigos dizem, o que diz vosso marido ou esposa, o que diz vosso patrão — e vereis que vossa mente está sempre totalmente ausente.

Simulais estar escutando, mas só escutais pela metade; ou tendes medo, ou estais enfadado, ou simplesmente não desejais escutar e, portanto, não há comunicação direta.

Como disse, o escutar, por si só, opera um extraordinário milagre.

O próprio ato de escutar produz uma compreensão imensa, sem esforço algum de vossa parte."

J.Krishnamurti em Satsang

21 de outubro de 2017

Sobre a morte e a imortalidade - Osho



"Nem pelo trabalho, nem pelo nascimento nem pela fortuna, mas apenas pela renúncia, alcançamos a imortalidade.
Mais sublime que o céu, a verdade absoluta, radiante mora na caverna do coração; e é ali que o buscador sincero a encontra."
Kaivalya Upanishad

"O problema da religião é a morte. Como resolvê-lo? Tentamos de várias maneiras. Por meio da riqueza, da ciência, da saúde, da proteção, da medicina, da filosofia e da teologia elaboramos diversas estratégias para sermos imortais. Inventamos muitas coisas, mas todas são vãs, sem sentido absurdas. A morte vem e nada a detém. Sempre foi assim e sempre será porque a morte na verdade, não está apenas no futuro, está também no passado.

Quando alguém nasce, a morte nasce com ele. A morte não está apenas no futuro, é uma decorrência daquilo que chamamos de nascimento. O nascimento é o começo da morte, ou poderíamos dizer, a morte é o final do processo de nascimento. Portanto, o aniversário do seu nascimento é também o aniversário da sua morte. O início é o fim, porque todo início implica um fim. Todo início tem seu fim como a semente. Se a morte estivesse unicamente no futuro, poderia ser evitada. Mas não está, ela faz parte de você, está aqui e agora dentro do seu ser - avançando, crescendo. 

Consequentemente, a morte não é um ponto fico em algum lugar. É algo que cresce em seu interior, e cresce sem parar. Quando você a combate, ela cresce. Quando você a alimenta, ela cresce. Quando tenta escapar de suas garras, ela cresce. Assim, o que quer de faça, uma coisa está constantemente em movimento: ou seja, você está morrendo. O que quer que faça - dormir, relaxar, trabalhar, pensar, meditar - uma coisa é certa: a morte está tomando corpo constantemente, continuamente. Ela não precisa de sua ajuda, não precisa de sua cooperação. Não liga para suas defesas, continua crescendo. Por quê? Porque nasceu quando você nasceu, faz parte de seu nascimento. A morte não pode ser evitada, pelo meios que o homem, a mente humana, sempre empregou.

Este Upanishad diz: a morte pode ser evitada, você se torna imortal, você pode conhecer aquilo que é imortal - que jamais morrerá.
Mas como conhecer isso? Onde procurá-lo, como descobri-lo? Afinal, todos  os esforços de que temos ciência são irrelevantes, sem sentido.
O Upanishad diz: não lute contra a morte, antes, procure saber o que é a vida. Não insista em escapar da morte, antes decida entrar na vida - a própria chama da vida deve ser penetrada. Não crie um tipo de vida negativa; não teime em fugir da morte - esse é uma ato negativo. Seja positivo e ocupe-se em aprender o que é a vida. De fato, a morte não se opõe à vida. Nos dicionários sim, na existência não. A morte não se opõe à vida; a morte se opões ao nascimento.

A vida é algo mais. Ela antecede o nascimento, não nasce. O nascimento é um fenômeno que acontece na vida. O nascimento não é o início da vida. Se fosse, então você teria nascido morto. O nascimento não é o início da vida, a vida o antecede. A vida está implícita no nascimento, existe antes dele. E como existe, dá-se o nascimento. A vida vem antes, o nascimento vem depois. Você existe mesmo antes de nascer. Você nasceu porque já existia.

O mesmo ocorre com a morte. Se você existia antes de nascer, então existirá depois de morrer, pois o que está presente antes do nascimento necessariamente estará presente depois da morte. A vida é algo que acontece entre o nascimento e a morte - e além do nascimento e da morte.

Devemos imaginar que a vida é um rio. Nele, um ponto é conhecido como nascimento, outro como morte, mas ele não para de fluir. Continua a fluir depois da morte o rio que já fluía antes do nascimento. Essa vida semelhante a um rio deve ser penetrado, do contrário nunca conheceremos aquilo que é imortal. Obviamente, o que não é mortal deve ser não nascido. Entretanto nosso olhar é  inteiramente mal orientado. Olharmos para uma maneira de escapar da morte. Ele é contra a morte, não a favor da vida. Por causa dessa falha única, nunca conseguimos conhecer o imortal. Prosseguimos na busca - descobrindo novos métodos, novas técnicas, novos recursos para iludir a morte. Mas a morte vem e jamais deixará de vir.

É preciso conhecer a vida. Jesus disse: "Buscai a vida, a abundância da vida." Não se contentem com aquilo que você chama de vida. Procure mais, descubra mais, aprofunde-se mais - saia à cata de mais vida. No momento buscamos menos morte e não mais vida. Nossa preocupação se volta totalmente para a morte.
Um exemplo. Na escuridão você pode fazer duas coisas: lutar contra ela, na tentativa de destruí-la, ou procurar uma luz, o que é bem diferente. Você poderá combater diretamente a escuridão, mas será derrotado: a escuridão é que vencerá. Não porque seja mais forte que você, mas porque você não tem poderes contra ela. Não, não: a escuridão não é poderosa e você não é impotente! Ocorre que a escuridão não passa de ausência e ninguém consegue lutar contra uma ausência.
A escuridão é negativa. Você não pode lutar contra ela e, se lutar, será derrotado - não porque ela seja forte, mas porque não existe. Como lutar contra algo inexistente? A escuridão não é nada; é apenas a ausência de luz. Se você decidir lutar contra ela, ficará lutando por milhares de anos, sem vencer nunca. Quanto mais for derrotado, mais procurará novos métodos de vencer. E quanto mais for derrotado, mais vai se sentir impotente e achar que a escuridão é muio poderosa. Pensará então que precisa descobrir algo mais poderoso que ela. Essa lógica é inteiramente falaciosa, um círculo vicioso; continue a aplicá-la e você jamais escapará desse círculo.(...)

O caso da morte é o mesmo. A morte não é uma entidade positiva, é apenas a ausência de vida. Quando a vida se ausenta, a morte ocorre. A morte é alguma coisa que se vai, não alguma coisa que vem até você - só a vida vai para algum outro lugar. O rio da vida começa a fluir para um determinado ponte e a morte ocorre - ela é apenas uma ausência.
Não há luz, as trevas ocorrem. A luz vem, as trevas não estão mais ali. Portanto, encontre luz, encontre a vida. Não lute contra a morte, não combata as trevas. Não seja negativo, seja positivo. E por positivo, entendo procurar sempre o que está presente. Jamais saia em busca do que está ausente - você jamais encontrará.
A morte acontece todos os dias, mas ninguém a encontrou, ninguém a conhece. Nem pode conhecer - como poderia? 
Você é a vida - como conheceria a morte? A escuridão está aí, mas o sol nunca a conheceu - como poderia o sol conhecê-la? Quando o sol aparece, não há mais trevas; portanto os dois nunca se encontram, não podem se encontrar isso é impossível. (...)

Você não pode encontrar sua própria ausência. Como poderia? A morte é a sua ausência. Quando você está ausente, a morte ocorre.
Permita-me dizer uma coisa: a morte é um fenômeno social, não individual. Nenhum indivíduo morre; o rio individual continua a correr para algum lugar. Mas quando, partindo de uma multidão, o rio individual flui para outro lugar, aos olhos da multidão alguém morreu; aos olhos da multidão alguém se ausentou. Se meu amigo morreu, morreu para mim, não para ele mesmo. A morte é um fenômeno que ocorreu para mim, não para meu amigo. Como seria possível que ocorresse para ele?
A vida não pode se defrontar com a morte; a vida é um movimento em direção a algum outro lugar - por isso nós nos defrontamos com ela. A morte é um fenômeno social, não é um fenômeno individual. Ninguém jamais morreu, mas nós sabemos que todos morrem. E todos morrem porque alguém de repente desaparece; Estamos aqui, se eu de repente desaparecer, então morri - não para mim, mas para você. Para você eu desapareci. Mas como desaparecer para mim mesmo? Isso seria impossível.

Os Upanishads recomendam: não lute contra a morte, lutar contra a morte é lutar contra a ausência. Em vez disso, procure a presença que está em você. Quem está presente em você? Descubra. O que está presente em você que você chama de vida? O quê? De onde veio para penetrar no seu ser? Qual é o centro, a fonte disso? Mergulhe em seu íntimo e descubra a fonte. Segundo o Upanishad essa fonte da vida está oculta em seu coração. Entre nele e encontre a fonte original. Depois que você conhecer essa fonte, não haverá mais morte para você, não haverá mais medo, não haverá mais nenhum problema. Depois que conhecemos a vida, nos tornamos imortais."
Osho em Os Upanishads, a essência de seus ensinamentos.

14 de outubro de 2017

Tantas mentes, tantos mundos - Osho


"A aparência das coisas é imposta ao eu. Eliminando-a, 
o eu se torna o Brahman absoluto, íntegro, sem igual e sem ação.
A aparência do eu, sob o aspecto do mundo da divisão, é falsa porque aquilo que não muda, 
que não tem órgãos, não é divisível.(...)
O eu consciente é livre do sentimento do observador, da observação e do observado. 
É inocente e pleno como o oceano.
Assim como as trevas destroem a luz, assim, a causa da ilusão se dissolve no Supremo que não tem igual. E, dado que o Supremo não tem órgãos, como poderia ser divisível?
Dado que a realidade superior é una, como haveria divisões?
No sono profundo, sem sonhos, sushupti, só existe a bem-aventurança.
Poderia ela por acaso, ser dividida?"

~Adhyatma Upanishad ~

Este Upanishad, em essência, se insurge contra a mente. Mas, não apenas ele; todas as lições do Upanishad se insurgem contra a mente.

Na verdade, a religião se opõe à mente, porque a mente cria toas as ilusões, todos os sonhos. Ela cria tudo aquilo que chamamos de mundo. A mente é o mundo; esforce-se por compreender essa verdade, que é uma das verdades fundamentais.

Em geral, pensamos estar vivendo todos num mundo só. Isso é absolutamente falso. Você vive em seu mundo, eu vivo no meu mundo; quantos mundos houver, outras tantas mentes haverá. Cada mente é um mundo próprio. Minha mente cria meu mundo; sua mente cria seu mundo.

O poeta vive em seu próprio mundo. O cientista nunca entra nesse mundo, não pode entrar. O cientista e o poeta podem ser vizinhos, mas constituem polos opostos. O cientista atravessa um jardim e olha para flor, mas essa flor não é vista. Ele olha para a estrutura da flor, não para a própria flor. Ele não consegue ver a flor do poeta,, nunca. Quando o cientista olha para uma flor, o que enxerga é um fenômeno químico. Esse fenômeno representa um mistério para ele, mas um mistério pode ser decodificado. É desconhecido, mas não incognoscível. Será conhecido - se não hoje, então amanhã, mas sempre é um mistério que pode ser desmistificado. A razão é capaz de penetrar sua estrutura e descobrir o que essa flor é e como desabrocha: a estrutura material, a estrutura atômica pode ser conhecida, penetrada. Portanto, a flor nunca é um mistério para o cientista do mesmo modo, que é um mistério para o poeta.

Quando o poeta passeia pelo jardim e olha aquela flor, não vê a mesma flor que o cientista viu. Entendamos bem isso. A mesma flor é olhada por duas mentes - uma com atitude científica, a outra com atitude poética. A flor é e não é uma só porque o cientista pensa numa flor diferente - química, elétrica, material estrutural. Pensa em termos de átomos: pensa em como essa flor é o que é. Qual o seu mecanismo? De que modo esse mecanismo funciona?

O poeta não liga de modo algum para átomos, matéria, moléculas, mecanismos, estruturas. Não, o poeta aprecia a beleza, de que o cientista nunca se dá conta. O poeta se dá conta de um certo mistério a que chama de beleza, mistério que não é o mesmo e que, para ele, jamais poderá ser desvendado. Se puder, não é mistério.
Para o poeta, mistério significa aquilo que permanecerá incognoscível. (...) O incognoscível é aquilo que não pode ser conhecido - nunca! Aos olhos do poeta, uma flor permanecerá para sempre misteriosa. Esse mistério é a sua beleza e a beleza não tem estrutura; a beleza não tem moléculas, átomos, mecanismo. O que é a beleza? Algo imaterial, não material - que na verdade, o poeta não vê, mas sente.

Podemos levar também, a passear no jardim, um místico - um santo, um sufi, um monge zen. Para ele, a flor não é nem uma estrutura científica a ser compreendida, analisada e conhecida, nem beleza, sensação poética, estética. Não: um místico, ao observar uma flor, se torna a própria flor. As barreiras se dissolvem. A flor não está lá e o místico aqui - aqui e lá se tornam uma só coisa. Por isso, o místico pode dizer: "Desabrochei em você."
A divisão não está presente. O místico penetra no próprio espírito da flor - ou a flor penetra no místico, tornado-se uma só coisa com ele. Um sentimento de unicidade, de unicidade divina, desce sobre o místico.
O cientista se aproxima da flor por meio do intelecto; o poeta se aproxima da flor por meio do coração; e o místico se aproxima da flor por meio de sua totalidade, de sua plenitude. A flor é e não é a mesma porque três mentes criam três mundos e esses mundos nunca se encontram. O poeta não poderá jamais entender que de que flor o cientista está falando. O cientista não poderá jamais entender o poeta, que lhe parece pueril, absurdo; nem o místico, que para ele é um louco: "O que quer dizer com isso de se tornar você próprio a flor? Ficou maluco? Como pode alguém se transformar numa flor? E como pode uma flor se transformar em alguém?. A ciência depende da divisão, por isso o mundo não dividido do místico é uma insensatez; o místico é louco.(...)

Se você escrever qualquer coisa em linguagem poética, ninguém conseguirá traduzi-la. Com a prosa é diferente, pois a prosa é racional. A poesia não pode ser traduzida porque é a expressão do irracional , em que o importante são os sentimentos e as emoções.
Quanto ao místico, à sabedoria dos místicos, também isso não se pode traduzir. É que essa sabedoria nada tem a ver com a linguagem; tem a ver com o ser, com a totalidade. Buda olhando o mundo diz palavras intraduzíveis. Por quê? Porque o olhar de Buda é tão vasto, tão abrangente que nenhuma palavra é capaz de exprimir o que ele vê. (...)

Você pode viver com sua esposa por quarenta, cinquenta anos - mas já reparou que não há uma linguagem comum entre ambos? O marido diz uma coisa, a esposa entende outra. Vivem juntos há quarenta, cinquenta anos - qual é então o problema? Por que não são capazes de entender as palavras e as definições do cônjuge? É difícil: cada qual tem sua mente; E cada mente tem seu próprio mundo, de modo que  tudo quanto penetrar nele assume forma e cor próprias. O marido tem seu mundo e o que diz significa alguma coisa de acordo com sua maneira de pensar. Quando suas palavras penetram no mundo da esposa, transformam-se em outra coisa. Os dois mundos nunca se encontram.

Só existe encontro onde existe silencio; não existe encontro onde existe conversa. Por isso o amor é silencioso. Quando amamos alguém não falamos, apenas estamos presentes um para o outro. A conversa cessa.

Portanto lembre-se: quando dois amantes começam a falar, já não há amor entre eles. Quando ficam em silencio, o amor existe - no amor, podem entender-se muito bem. Por quê? Porque no amor, a mente não tem permissão para estar. A linguagem se ausenta, a conversa essa, não se proferem mais palavras - a mente deixou de funcionar. Por alguns poucos instantes, ela não funciona e o amor se torna comunhão.
A conversa acaba desandando em debate, discussão, controvérsia. Você diz uma coisa e o outro entende outra coisa. Dizer algo é ser mal compreendido porque você tenta se aproximar de um mundo diferente, com diferentes atitudes, diferentes orientações, diferentes linguagens. Não existe um mundo único: tantas mentes, tantos mundos.

Por que insistir nessa postura? Apenas diga a si mesmo que, na verdade, existe um mundo só, ao qual, no entanto você só terá acesso depois de sua mente se dissolver. Se continuar apegado à sua mente, continuará criando seu próprio mundo, projetando seu próprio mundo. Quando a mente já não existe, você encontra a unicidade, a existência divina e indiferenciada.

Essa existência é bem-aventurança.
Essa existência é consciência.
Essa existência é verdade.

Sempre que você se mover rumo à religião, se moverá ruma à não mente. Jogue fora a mente e permaneça sem mente, mas consciente. Se permanecer sem mente e consciente, penetrará na camada profunda da existência.
No entanto, lembre-se: permanecer sem mente não é o bastante, pois no sono profundo, sem sonhos, todos ficamos sem ela.
A psicologia indiana divide a consciência humana em três etapas: o sono com sonhos; acima deste, o sono com sonhos; e na superfície, a vigília. De manhã você se levanta da cama e entra no estado de vigília. Á noite, vai para a cama e entra no estado de sono com sonhos. Mais tarde, os sonhos desaparecem, e você mergulha no abismo do sono sem sonhos - conhecido como sashupti.
No sonho sem sonhos não há mente porque não há pensamento, sonho ou agitação; tudo cessa, a mente se dissolve e você fica sem mente. Daí, a recomendação: " Estejam atentos e não pensem." Essa é a única diferença entre samadhi e sushupti. Samadhi é o ponto mais alto do êxtase e sushipti, o centro mais profundo do sono sem sonhos. Não há outra diferença; em tudo o mais são uma coisa só. Em sushipti, não há mente; em samadhi não há mente. Em sushupti você está inconsciente. Em samadhi, você está totalmente consciente. A consciência, porém é a mesma. Em um estado há trevas; no outro, há luz.

Graças à meditação, mergulhamos num sono sem sonhos e, ainda assim, permanecemos alertas. Quando isso acontece, a gota cai no oceano e se transforma em oceano."
Osho em Os Upanishads, a essência de seus ensinamentos.

7 de outubro de 2017

O que é a mente? - J.Krishnamurti


"Você sabe o que é a mente? Grandes filósofos consumiram anos e investigar a natureza da mente, e sobre ela se têm escrito vários volumes; mas, prestando-se toda a atenção, acho que é bastante simples descobrir o que é a mente. Você já observou a sua própria mente? Tudo o que até hoje você aprendeu, a lembrança de todas as suas pequenas experiências, tudo o que seus pais e mestres lhe ensinaram, tudo o que você leu em livros e observou no mundo circundante — tudo isso é a mente. É a mente que observa, que discerne, que aprende, que cultiva as chamadas virtudes, que comunica ideias, que tem desejos e temores. Ela é, não só o que você vê à superfície, mas também as profundezas do inconsciente, onde estão ocultas as raciais ambições, motivos, impulsos, conflitos. Tudo isso constitui a mente. 

Pois bem; a mente quer estar sempre ocupada com alguma coisa, assim como a mãe que se preocupa com os filhos, ou a dona de casa com sua cozinha, ou o político com sua popularidade, sua posição no Parlamento; e a mente que se mantém ocupada é incapaz de resolver um problema. Percebe isso? Só a mente que não está ocupada, está fresca e pode compreender um problema.

Observe sua própria mente para ver como é inquieta, uma vez que está sempre ocupada com alguma coisa: com o que alguém disse ontem, com alguma notícia recebida neste instante, com o que você fará amanhã, etc. Nunca se encontra desocupada — o que não significa estar “estagnada” ou num estado de vacuidade. 

Enquanto está ocupada com o que quer que seja — as coisas mais elevadas ou as mais insignificantes — a mente é sempre limitada, medíocre. E a mente medíocre é incapaz de resolver qualquer problema; só sabe manter-se ocupada com ele. Por mais importante que seja o problema, a mente mantendo-se ocupada com ele, o torna insignificante: só a mente que está desocupada e, por conseguinte, fresca, pode considerar e resolver um problema.

Mas, é dificílimo ter a mente desocupada. Quando alguma vez você estiver sentado tranquilamente à beira do rio, ou em seu quarto, observe a si mesmo, para ver como aquele pequeno espaço de que você está consciente e que você chama “a mente”, está repleto de pensamentos que nele se precipitam. Enquanto a mente está “cheia”, ocupada com alguma coisa — seja a mente de uma dona de casa, seja a do maior dos cientistas, ela é pequena, medíocre, e nunca será capaz de resolver qualquer problema a que se aplique. Mas, ao contrário, a mente que está desocupada, que tem espaço, pode aplicar-se ao problema e resolvê-lo, porque essa mente é fresca, e, portanto, se aplica ao problema de maneira nova e não com a velha herança de suas próprias lembranças e tradições."

J.Krishnamurti – A cultura e o problema humano

30 de setembro de 2017

O rio da Vida - J.Krishnamurti


"Você sabe o que significa busca a permanência? Significa desejar que as coisas agradáveis durem eternamente, e as desagradáveis terminem o mais rápido possível Desejamos que nosso nome se torne famoso e tenha continuidade em nossa família e em nossos bens materiais; queremos o sentimento de permanência em nossas relações e atividades; e tudo isso significa que desejamos uma existência duradoura, contínua, em nosso fosso estagnado; lá, não queremos verdadeiras mudanças e, assim, edificamos uma sociedade que nos garante a permanência de nossos bens, nosso nome, nossa fama.

Mas, veja, a vida de modo algum é assim; a vida não é permanente. Como as folhas que caem da árvore, todas as coisas são impermanentes, nada perdura; há sempre mutação e morte. Você já observou uma árvore nua, desenhada contra o céu? Em seus galhos bem delineados, em sua nudez, há um poema, uma canção. Foram-se todas as suas folhas, e ela aguarda a primavera. Com a vinda da primavera, de novo se enche a árvore com a música de suas folhas que, na estação própria, caem e são levadas pelo vento. Assim também é a vida.

Mas nós não a queremos assim. Apegamos-nos aos nossos filhos, nossas tradições, nossa sociedade e nossas insignificantes virtudes, porque desejamos permanência; por isso é que temos medo de morrer. Tememos perder as coisas que conhecemos. Mas a vida não é como desejamos; a vida em coisa nenhuma é permanente. Os pássaros morem, a neve derrete, as árvores são abatidas pelo homem ou destruídas pelas tempestades, e assim por diante. Mas, queremos que perdure a nossa posição, a autoridade que sobre outros exercemos. Recusamo-nos a aceitar a vida como efetivamente é.

O fato é que a vida é como o rio: eternamente em movimento, perenemente buscando, explorando, impelindo, transbordando, penetrando todas as frestas com sua água. Mas, veja, a mente não quer que assim aconteça. Percebe que é perigoso, arriscado, viver num estado de impermanência, de insegurança e, por conseguinte, constrói uma muralha em torno de si própria: a muralha da tradição, da religião organizada, das teorias políticas e sociais. Família, nome, bens materiais — tudo isso se encontra atrás das muralhas, separado da vida. A vida, que é movimento, impermanência, procura incessantemente penetrar, demolir essas muralhas, atrás das quais só há confusão e angústia. Os deuses que moram atrás das muralhas são falsos deuses, e suas escrituras e filosofias são sem significação, porque a vida as excede.

Ora, para a mente que não tem muralhas, que não está pejada de aquisições, acumulações, conhecimentos, para a mente que vive fora do tempo, na insegurança, para essa mente a vida é uma coisa maravilhosa. Essa mente é a própria vida, porque a vida não tem pouso. Mas, quase todos nós queremos um pouso, uma pequena casa, um nome, uma posição, e consideramos essas coisas muito importantes. Exigimos permanência, e criamos uma “cultura” baseada nessa permanência, inventamos deuses que não são deuses, mas, tão só, “projeções” de nossos próprios desejos.

A mente que busca a permanência depressa se estagna; como a vala ao lado do rio, depressa se enche de corrupção, deterioração. Só a mente que não tem muralhas, que não tem ponto de apoio, não tem barreira, não tem pouso, que se move, toda inteira, com a vida, eternamente ousando, explorando, “explodindo” — só essa mente pode ser feliz, eternamente nova, porque ela é essencialmente criadora.
Entende o que estou dizendo? Você deve compreendê-lo, porque faz parte da verdadeira educação e, quando o compreender, sua vida será completamente transformada, suas relações com o mundo, com o próximo, com seu cônjuge, terão significado de todo diferente. Você já não tentará, então, preencher-se com coisa alguma, porque perceberá que a busca de preenchimento só atrai sofrimento e confusão. Por essa razão, você deve perguntar aos seus mestres sobre tudo isso, e discuti-lo também entre vocês. Se você o compreende, terá começado a compreender essa verdade extraordinária que é a vida, e nessa compreensão encontra-se grande beleza e amor, o florescimento da bondade. Mas, os esforços da mente que busca um fosso de segurança, de permanência, só podem conduzir à treva e à corrupção. Uma vez instalada naquele fosso, a mente teme aventurar-se fora dele, para buscar, explorar; mas a Verdade, Deus, a Realidade — ou o nome que você quiser — encontra-se além dos limites do fosso.

Você sabe o que é religião? Não é o cântico, não é a execução de rituais, não é a adoração de deuses de lata ou imagens de pedra; ela não se encontra nos templos e igrejas, nem na leitura da Bíblia ou do Gita; não é a repetição de um nome sagrado ou o seguir de qualquer outra superstição inventada pelos homens. Nada disso é religião.

Religião é o sentimento da bondade, daquele amor semelhante ao rio — que é um movimento vivo, eterno. Naquele estado, você verá chegar um momento em que não haverá busca de espécie alguma; e esse findar da busca é o começo de algo totalmente novo. 

A busca de Deus, da Verdade, o sentimento de se ser integralmente bom (não o cultivo da bondade, da humildade, porém o buscar, além das invenções e dos artifícios da mente, uma certa coisa — e isso significa ser sensível a essa coisa, viver nela, sê-la) isso que é a verdadeira religião. Mas nada disso lhe será possível se você não abandonar o fosso que você cavou para si mesmo, e entrar no rio da vida. 

A vida cuidará então de você, de uma maneira surpreendente, pois, de sua parte, nada haverá para cuidar. A vida, então, lhe levará aonde lhe aprouver, porque você será uma parte dela; não haverá mais problemas concernentes à segurança ou ao que “os outros” digam ou não digam. E esta é que é a beleza da vida."

J.Krishnamurti — A cultura e o problema humano

23 de setembro de 2017

Sannyas e Yoga - Osho


"Aqueles que purificaram a mente graças à prática de sannyas e yoga, bem como aqueles que compreenderam o significado exato da ciência espiritual ensinada no vedanta Upanishad, tornam-se enfim capazes de alcançar brahmalok - o mundo de Brahma.
 Libertando-se de tudo, lutam para obter a imortalidade."
Kayvalia Upanishad

O problema real é como Ser, como o Ser deve ser fortalecido. O conhecimento pode crescer facilmente, tem seus próprios meios para isso. Mas o conhecimento é um crescimento parasita. O conhecimento cresce na memória, que é mecânica. E por isso hoje temos aparelhos que podem ser providos de memória. Temos computadores que são mais eficientes que qualquer cérebro humano. O computador pode fazer tudo o que o cérebro humano faz e muitas coisas que o cérebro humano jamais faria. Cedo ou tarde, a memória humana será substituída por equipamentos mecânicos. Estes conseguem fazer tudo o que a mente faz - e com mais eficiência em menos tempo. (...)

A mente não passa de um equipamento mecânico. Pode crescer; se você a alimentar com conhecimento e informação, ela crescerá. Você talvez não o perceba, mas da mente só sai o que nela foi colocado antes - só. Da mente, não sai nada de original. Portanto, com respeito à mente, não existe originalidade: tudo é repetição. A mente é o mecanismo mais repetitivo que existe. Você precisa alimentá-la, dar-lhe alguma coisa que ela possa reproduzir. Nenhum pensamento nos ocorre que seja verdadeiramente nosso. Todos nos foram dados - pela sociedade, pela educação, pelo estudo. Mas todos nos foram dados. No máximo, fazemos novas combinações, só isso. A mente não consegue fazer mais nada. Isso é o crescimento, crescimento parasita à custa de nosso Ser.

Por "Ser", entendo a consciência com a qual nascemos. E, por "mente", entendo tudo o que foi acumulado em nossa consciência pela sociedade, a educação e a cultura. Você não nasceu com uma mente, nasceu com uma consciência. A mente é um crescimento posterior. Por isso, se a pessoa não for disciplinada e educada, terá uma mente pobre, insignificante. Se nenhuma língua por ensinada, ela não conhecerá nada. A mente é um crescimento social. A consciência é uma parte de você, mas a mente não; a mente lhe foi dada. O objetivo de todo cultivo social, de toda imposição social é produzir em você uma mente.

Por isso a mente cristã é diferente da mente hindu, pois a sociedade hindu dá alguma coisa e a sociedade cristã dá algo mais. A mente muçulmana é totalmente diferente das mentes hindu, cristã ou jainista. Mas a consciência dos hindus, dos muçulmanos ou dos cristãos é a mesma. De fato, uma consciência não pode ser chamada de cristã, hindu ou muçulmana - mas uma mente pode. (...)

A mente é boa enquanto não se torna uma prisão. Pode ocorrer, em determinado instante, que você fique livre de sua mente. Então, ela começa a operar como um equipamento mecânico em você; você pode usá-la, mas não se identifica com ela.

Sem dúvida, precisamos usar a linguagem e a matemática; sem dúvida, precisamos conhecer a história e a geografia e tudo o mais. Mas nada disso se identifica com nossa consciência. Devemos permanecer apenas como testemunha desse conhecimento. Devemos ser separados, diferentes de nossa mente; sem identificação com ela. É isso que a meditação ensina: o modo de não nos identificarmos com a mente, de criarmos um espaço entre nós e ela.

A dificuldade está em  que nunca fazemos separações. Pensamos que mente significa eu; mente e eu se identificam por completo. E, sendo assim, nunca ficamos tranquilos, nunca nos tornamos capazes de penetrar o divino, pois o divino só pode ser penetrado quando o social é esquecido. Quando tudo o que a sociedade nos deu é deixado de lado, penetramos no divino porque só então penetramos na consciência pura. A mente é uma excrescência e deve ser posta de lado.

Por renúncia, entendo o repúdio do social. Nossa mente é apenas um subproduto da sociedade, dependente desta. A mente pode crescer sem parar. Então, crescemos em conhecimento - estudando, aprendendo novas coisas, mais coisas; Assim, a mente continua crescendo.

Ela é capaz de crescer indefinidamente. Por enquanto, os cientistas não podem dizer aonde ela vai chegar. Sabemos apenas que ela se avoluma, que o processo parece sem limites. Seu potencial é tremendo; são 70 milhões de células trabalhando, cada célula capaz de armazenar dezenas de milhões de bits de informação. Isso mesmo, uma única célula da mente, pode armazenar dezenas de milhões de bits de informação e a mente como um todo possui nada menos que setenta milhões de células! Cada célula parece pois, capaz de acumulo infinito de informações.

A mente parece finita à sua maneira. Mas ela não é você! É apenas algo que lhe foi dado. É útil, é funcional; por isso nos identificamos com ela. Precisamos usá-la o tempo todo, sem interrupção. Você não poderia se lembrar de momento algum em que não foi sua mente. Esse é o problema - lembrar-se, criar um espaço, uma lacuna, um momento em que você não foi sua mente. Quando você é você mesmo e a sua mente não passa de um recurso à sua disposição, você é senhor de decidir se vai usá-la ou não.

Em geral, a mente é dona e você tem de obedecer a ela. A mente lhe dá algo para pensar e você pensa. A mente lhe dá um sonho e você é obrigado a sonhá-lo. E assim por diante... Ás vezes, mesmo quando você diz à sua mente: "Pare!", ela não para. Não o escuta; e não o escuta porque você cooperou tanto com ela, repassando-lhe sua energia e identificação, que ela já não se lembra de que o dono é você. Para sua mente, você é um escravo.

Meditar significa criar um espaço para que você se torne o dono de sua própria mente. E ser dono significa não se identificar. Posso ordenar à minha mão que faça qualquer coisa - mover-se ou ficar parada. Por quê? Porque não me identifico com minha mão; de outro modo, quem ordenaria e quem obedeceria? Ordeno a minha mão que se mova - e ela se move. Contudo, se minha mão começar a se mover e eu disser: "Pare!", mas ela não parar, o que vem a ser isso? Apenas uma coisa: minha ordem é impotente porque me identifiquei demais com minha mão. Ela se tornou dona de direito próprio - e continua se movendo. Diz: "Não vou seguir absolutamente sua ordem".
Foi o que aconteceu com a mente. Ela continuou agindo por si mesma. Não se pode lhe dar ordens. Mas não por uma impossibilidade intrínseca - acontece que você nunca lhe ordenou nada e ela não sabe que o dono é você. O dono permaneceu tão calado, tão escondido que o escravo começou a se julgar o senhor.

Se esse crescimento prosseguir, a pessoa ficará cada vez mais encolhida em si mesma e a mente se dilatará a tal ponto que sua consciência enfrentará dificuldades para se impor. Por isso, um aldeão simplório, com uma mente menor, possui às vezes mais consciência. Uma pessoa comum - não muito culta, sem grandes conhecimentos - tem sempre, é claro, menos mente, mais consciência. Não raro, uma pessoa de mente grande se comporta de maneira lamentavelmente tola porque tem consciência pequena.

No entanto, a pessoa de mente desenvolvida pode agir com sabedoria, comportar-se com sabedoria caso, na situação a mente saiba o que fazer e o que não fazer. A pessoa então, se comportará, trabalhará e fará tudo com bastante eficiência. Porém, numa situação nova, desconhecida para a mente, ela agirá de modo estúpido.
Um aldeão - sem cultura, primitivo, com mente pequena - agirá mais conscientemente numa situação nova, porque, para ele as novas situações ocorrem todos os dias, a todo instante. Sem uma mente desenvolvida, ele terá de apelar para a consciência. Por isso o mundo, acumulando mais conhecimento, tornou-se menos sábio. Hoje é difícil produzir um Buda - não porque sejamos mais ignorantes, mas por que sabemos mais. Hoje é difícil produzir um Jesus, não por carência de alguma coisa, mas pelo excesso. O conhecimento aumentou vertiginosamente, e com isso, o ser se empobreceu.

Valorizamos alguém pelo que ele possui - cultura, riqueza, poder - nunca pelo que ele é. Se tenho poder, sou valorizado; se tenho riqueza, sou valorizado; se tenho cultura, sou valorizado - mas ninguém me valoriza pelo que sou. Se perco a riqueza, minha influência desaparece; se perco o conhecimento, minha influência desaparece; se perco o poder, minha influência desaparece - pois não sou valorizado pelo que sou. Sou valorizado pelo que possuo. A posse se tornou mais importante, e saber é uma forma sutil de possuir.

Ser é a pureza de minha existência interior, sem nenhum acréscimo de fora; riqueza, conhecimento, nada - só minha consciência interior em toda a sua pureza. É isso que entendo por crescimento do ser, o qual pode ser alcançado somente por dois métodos: renúncia - sannyas e yoga, ciência do crescimento positivo. Podemos renunciar às identificações, compreendendo que "Eu não sou o corpo, eu não sou a mente." E podemos estender a renúncia a tudo o que seja mente, exceto o "eu sou", atingindo o ponto central ao qual não se pode renunciar.(...)

Podemos provar a existência do amor? Todos sabemos que o amor existe. Mesmo quem não o sentiu profundamente, ao menos sentiu sua ausência. O amor é sentido como presença ou ausência - mas ninguém pode prová-lo. Portanto, se alguém disser: "O amor não existe", você não conseguirá desmenti-lo.
Assim, Descartes continua negando, duvidando. (... ) Descartes propõe então: "Este mundo não existe. É apenas um pensamento, um sonho. Deus também não existe." Desse modo, vai negando tudo. Por fim, chega até ele próprio e começa a indagar se existe ou não. Mas eis que se depara com um fato que não pode ser negado: mesmo que tudo seja negado, mesmo que tudo seja sonho, alguém tem de sonhá-lo. Mesmo que tudo seja duvidoso, alguém tem de duvidar. Portanto, quando Descartes diz: "Não existo", alguém tem de estar negando a própria existência. Até para duvidar é preciso haver quem duvide. Prossegue então o filósofo: " Chego, pois a um fato indubitável, posso duvidar de tudo, mas não posso duvidar de mim mesmo. Se duvidar , a dúvida provará minha existência." E fornece esta fórmula consistente: "Cogito ego sum - Penso ( duvido ) logo existo".

A realidade do "eu sou" deve ser isolada da função cerebral, da mente, do pensamento. Ela é o ser, e para conhecer este ser, temos de eliminar de nós tudo o que possa ser eliminado - como Descartes, que diz: "Só pararei de duvidar quando descobrir algo que não seja duvidoso". Da mesma forma, você deve continuar renunciando a tudo o que for possível, até chegar a algo que não admita renúncia. Você não pode renunciar a seu ser; mas pode renunciar ao resto. Pode renunciar a tudo que não possa chamar de "isto sou eu". a tudo que não possa chamar de "Eu sou isto". Pode pensar: "Não isso não sou eu. Este corpo não sou eu, este pensamento não sou eu. este mundo não sou eu. esta faculdade de pensar não sou eu." Continue negando, mas chegará o momento em que não conseguirá mais negar. Só o que restará é a realidade do "EU SOU". Nem mesmo isso: só o que restará é a "realidade". Essa realidade é o salto existencial.

A primeira parte do sutra é : renúncia, sannyas. Portanto, sannyas é um processo negativo. Precisamos ir eliminado sucessivamente: "Isto não é o eu sou", "Aquilo não é o eu sou." Isso é renúncia, processo negativo, eliminação. Mas é apenas uma parte. Você precisa renunciar a tudo aquilo que não é e depois, desenvolver aquilo que é.
Isso é yoga, a ciência positiva do desenvolvimento. Yoga tem de se desenvolver o que está em você. Como? Como desenvolvê-lo? Já o vimos: pela fé, pela devoção, pela meditação, pelas práticas do corpo e outras. Isso é yoga.

Sannyas mais yoga é igual a religiosidade.
Renuncie àquilo que você não é e desenvolva , crie, aquilo que é. Somente pelos processos positivo e negativo plenamente harmonizados alcançamos o Brahman, o absoluto. "
Osho em Os Upanishads, a essência de seus ensinamentos.


16 de setembro de 2017

Meditação Andando - Thich Nhat Hahn


"Quando foi desafiado por Maya - a ilusão - Budha tocou a terra com a mão direita e disse "Tendo a terra por testemunha, ficarei sentado aqui, em estado de meditação, até que experimente o verdadeiro despertar"
Diante disso, Maya desapareceu.

Às vezes, nós também somos visitados por Maya - quando sentimos irritação, insegurança, raiva ou infelicidade. 
Quando isto acontecer, toque o chão firmemente com seus pés. 
Pratique a meditação andando. 

A Terra, nossa mãe, está cheia de amor por nós. 
Se estivermos sofrendo, ela irá nos proteger, alimentando-nos com suas belas árvores, ervas e flores.

A terra é sempre paciente e de coração aberto.
Ela espera por você 
Esperou muito por você
Pelos últimos trilhões de períodos.
Pode esperar por qualquer extensão de tempo.
Ela sabe que você voltará a ela um dia.
Refrescante e verde ela o acolherá,
Porque o amor nunca diz : 
"Esta é a última vez";
Porque a terra é mãe amorosa.
Ela jamais deixará de esperar por você.

Todos os nossos antepassados e todas as gerações futuras estão presentes em nós. A libertação não é assunto particular. 
Enquanto os antepassados estão sofrendo em nós, não podemos ser felizes, e nós transmitiremos este sofrimento aos nossos filhos e aos filhos deles.
Agora é o tempo de libertar os nossos antepassados e as gerações futuras. 
Isto significa libertar a nós mesmos. 

Se conseguirmos dar um passo com liberdade e felicidade, tocando a terra com com plena consciência, podemos dar uma centena. 
Nós o fazemos para nós mesmos e para todas as gerações passadas e futuras. Todos nós chegaremos ao mesmo tempo e encontraremos 
a paz e a felicidade juntos."
Thich Nhat Hahn em Meditação Andando


9 de setembro de 2017

Sobre a preguiça - Pema Chödrön


"Tradicionalmente, a preguiça é ensinada como sendo um dos obstáculos para a iluminação. Existem diferentes tipos de preguiça. 

Primeiro, existe a preguiça da busca pelo conforto, onde apenas tentamos nos manter confortáveis e aconchegados. 

Existe a preguiça da perda do coração, um tipo de desânimo profundo, um sentimento de desistir de nós mesmos, de desesperança. 

E também existe a preguiça do “não poderia me importar menos”. Quando nos endurecemos em resignação e amargura e simplesmente nos fechamos.

A busca pelo conforto vem numa variedade de formas. 

Sogyal Rinpoche escreve que no Oriente, por exemplo, a preguiça frequentemente se manifesta como tomar sol com amigos próximos, beber chá e deixar os dias passarem. No Ocidente, ele observa, a preguiça frequentemente se manifesta como velocidade. As pessoas se precipitam de uma coisa à outra, da academia para o escritório para o bar para as montanhas para a aula de meditação para a pia da cozinha, o jardim, o clube. Nos apressamos em procurar, procurar, procurar conforto e bem-estar.

“Nós tocamos o ponto central deste momento de ser e então deixamos ir. É assim que treinamos. Vez após vez, esta é a nossa prática.”

Se deitamos ou corremos, e seja qual for o lugar do planeta em que estejamos, a preguiça pela busca de conforto é caracterizada por uma ignorância profunda. Nós buscamos o esquecimento: uma vida que não machuque, um abrigo contra as dificuldades, dúvidas e preocupações. Queremos um tempo de sermos nós mesmos, um tempo dessa vida que por acaso é a nossa. Então, através da preguiça buscamos amplidão e alívio; mas encontrar o que buscamos é como tomar água salgada, porque nossa sede por conforto e bem-estar nunca é satisfeita.

A preguiça da perda do coração é caracterizada pela vulnerabilidade, por feridas e por não saber o que fazer. Nós apenas tentamos ser nós mesmos e não conseguimos corresponder às expectativas. O jeito que somos não está ok. Nós perseguimos prazer e não encontramos felicidade duradoura. Nós tiramos um tempo, saímos de férias, aprendemos a meditar, estudamos ensinamentos espirituais, ou gastamos anos dedicados a certas visões políticas ou filosóficas. Ajudamos aos pobres, salvamos as árvores, bebemos, ingerimos drogas, e não encontramos satisfação. Tentamos e falhamos. Chegamos num lugar doloroso, sem esperança. Nós nem queremos nos mexer. 

Sentimos que, com sorte, poderíamos dormir por centenas de anos. Nossa vida parece sem sentido. 
A perda do coração é tão dolorosa que ficamos paralisados.

O “não poderia me importar menos” é mais difícil, mais gelado, fatalista. Esse sabor particular de preguiça tem uma ponta de cinismo e amargura. Sentimos que já não estamos nem aí. Nos sentimos preguiçosos e desprezíveis ao mesmo tempo. Nos sentimos desprezíveis frente a este mundo vil e decepcionante, e ante a esta ou aquela pessoa. Na maioria das vezes nos sentimos desprezíveis ante a nós mesmos. Cometemos um erro. Não temos muita certeza qual foi o erro, mas entendemos tudo errado; e agora, que se ferre! Nós tentamos esquecer, da forma que pudermos. Paramos de fazer alguma coisa. De qualquer maneira, sentimos como se não pudéssemos fazer muito, e francamente, não nos importamos. Então, o que fazer?

A premissa de que devemos eliminar nossas falhas parece estar embrenhada na difícil condição humana; como pessoas dignas e adequadas, deveríamos ser capazes de simplesmente saltar por sobre nossas fraquezas. 

Então, talvez a coisa adulta a se fazer seria explodir a preguiça com uma bomba, ou jogá-la no Oceano Atlântico com um peso enorme para que nunca mais volte a aparecer, ou mandá-la para o espaço para que fique flutuando no infinito e nunca mais precisemos nos relacionar com isso novamente.

Mas se nos perguntarmos, “De onde vem a alegria? De onde vem a inspiração?”, vamos descobrir que elas não vêm do ato de nos livrarmos de alguma coisa. Elas não vêm da divisão de nós mesmos em duas partes e da batalha contra a nossa própria energia. Elas não vêm do ato de ver a preguiça como um oponente, ou algo sobre o qual devemos saltar. Elas não vêm do ato de denegrir a nós mesmos.

O caminho da iluminação é um processo. É um processo de aprendizado gradual de nos tornarmos íntimos com os nossos, assim chamados, obstáculos. Então, ao invés de nos sentirmos desanimados pela preguiça, podemos olhar para essa nossa preguiça, nos tornarmos curiosos sobre essa preguiça. Podemos começar a conhecer a preguiça profundamente.

Podemos nos unir à preguiça, ser nossa preguiça, conhecer o seu cheiro e o seu gosto, senti-la em nossos corpos. O caminho espiritual é um processo de relaxar dentro deste momento presente de apenas ser. Nós entramos em contato com este momento de letargia, ou perda do coração, este momento de dor, de recusa, de “não poderia me importar menos”. Nós tocamos isso e então seguimos em frente. Este é o treinamento. Seja na meditação formal ou ao longo dos dias e das noites, podemos treinar soltar nossos comentários e entrar em contato com a qualidade percebida a partir da nossa experiência. Podemos tocar nossa experiência sem ficarmos presos pelas histórias. Podemos tocar este momento presente e então seguir em frente.

Estamos sentados em meditação ou seguindo nossa rotina diária, e começamos a escutar o que estamos dizendo. O que escutamos é: “Puts! Pobre de mim. Sou um fracasso. Não há esperança.”. Olhamos para o que fazemos a nós mesmos, o que dizemos a nós mesmos, como perdemos nosso coração ou tentamos nos distrair. Então deixamos essas palavras irem embora e tocamos a essência deste momento. Tocamos o centro deste momento de apenas ser e então deixamos ir. É assim que treinamos. De novo e de novo, esta é a nossa prática.

Nos juntamos à nossa perda de coração com honestidade e bondade. Ao invés de fugir da dor da preguiça, nós chegamos mais perto. Nós nos inclinamos em direção à onda. Nós nadamos na onda.

Em algum ponto do processo de permanecer no momento presente, pode acontecer que haja vários irmãos e irmãs infelizes lá fora, sofrendo como estamos sofrendo. Ao nos tornarmos íntimos de nossa própria dor, de nossa própria preguiça, estamos em contato com todos eles, entendendo-os, compreendendo nossa similaridade com todos eles.

Estamos sentados em frente à televisão comendo chips, tomando cerveja, fumando cigarros. Hora após hora após hora nós fazemos isso. E então, por alguma razão, nos enxergamos claramente. Temos a escolha de comer o décimo pacote de salgadinho e assistir à décima sexta série seguida, ou nos relacionar com nossa depressão e preguiça de maneira honesta e de coração aberto. Ao invés de continuar a viajar na maionese, a desligar e nos fechar, nós nos inclinamos e relaxamos. É assim que praticamos.

Então talvez abrimos a janela ou saímos para uma caminhada, ou talvez sentamos em silêncio, mas o que quer que façamos, nos ocorre ficar com nós mesmos, ver o que está por detrás das palavras, por detrás da ignorância, e sentir a qualidade deste momento de apenas ser, em nossos corações, em nossos estômagos, por nós mesmos, e por todos as milhões de outras pessoas que estão nesse mesmo barco. 

Começamos a treinar abertura e compaixão frente a este momento. Este momento de preguiça se torna nosso professor particular. 
Este precioso momento se torna nossa prática profunda e curativa."

2 de setembro de 2017

Sentimentos - Osho


"Algumas coisas morrem com a luz.

Se você puxar para fora da terra as raízes de uma árvore, elas morrerão. Elas necessitam da escuridão, elas vivem na escuridão, na escuridão está a vida delas. 

Assim como as raízes, o sofrimento também vive na escuridão.
Exponha os seus sofrimentos e você descobrirá que eles morreram. 

A infelicidade tem de ser expressada. 

Compreenda uma coisa mais: foi de fora que você pegou as dores e as trouxe para dentro de si. Por favor, volte com elas para o lado de fora. A dor não é interna; todas as dores são trazidas do lado de fora. 

Na medida em que você joga fora a dor, que a envia de volta para fora, de onde ela veio, a alegria começa a brotar dentro de você. A alegria está dentro. Ninguém a traz de fora. Ela não vem de fora, ela é a sua natureza, ela é você. Ela é a sua alma.

Se for jogado fora esse lixo que veio de fora e que tem sido acumulado, então a alma interna começará a expandir, começará a crescer. Você começa a ver a sua luz e a ouvir a sua dança, você começa a mergulhar na música mais interna.

Um pouco de coragem é requerida e você poderá abandonar o seu inferno - exatamente como alguém que se suja na rua e volta para casa para tomar um banho e a sujeira é lavada. 

Da mesma maneira, a meditação é o banho e a dor é a sujeira. 

Assim como depois do banho a sujeira foi lavada e você se sente fresco, da mesma forma você terá um vislumbre, sentindo dentro de si a alegria que é a sua natureza."
- Osho em Além da Psicologia
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